NaturalTech

Negócios amazônicos participam da NaturalTech, maior feira de produtos naturais da América Latina

Foto: NaturalTech – divulgação

De 08 a 11 de junho,  32 negócios que valorizam saberes e ingredientes amazônicos em produtos originais, belos e saborosos participam da NaturalTech, em São Paulo. Os negócios integram o movimento Amazônia em Casa Floresta em pé, e oferecem aos visitantes da feira chocolate com cacau nativo, café agroflorestal, castanhas, sucos, guaraná, suplementos alimentares, farofas, tucupis, geleias, pimentas, molhos, óleos, pescados, biocosméticos, artesanato, acessórios, dentre outros produtos naturais.

A feira é uma oportunidade para promover a troca de experiências entre produtores, redes varejistas e consumidores finais, o que trará visibilidade e contribuirá para ampliar a presença desses produtos no mercado. 

“Queremos levar a ideia de que, consumindo produtos da floresta de forma responsável, nós ajudamos a mantê-la de pé. Esses empreendimentos terão oportunidade de mostrar para o Brasil a potência e influência dos saberes e sabores da Amazônia na economia, na cultura e na manutenção da vida na Terra”, diz Guilherme Faleiros, coordenador do programa de acesso a mercados pela AMAZ aceleradora de impacto.

Com quase 100 m², o estande do movimento será o maior dedicado à Amazônia, oferecendo experiências únicas de sabores e culturas da maior floresta tropical do planeta. Serão promovidas sessões de degustação pela manhã e em happy hours no fim da tarde, que incluem bolo de babaçu, conserva de vitória régia, molhos à base de tucupi, carpaccio de pirarucu, cachaça orgânica de jambu, entre outras delícias regionais. 

A ilha central do estande terá petiscos desenvolvidos pela chef Carla Pernambuco, que vai ministrar uma aula show durante a palestra “Amazônia em Casa Floresta em Pé: o desafio é levar a floresta até você!”, que acontecerá dia 10 de junho às 15h na Arena Inspiração, espaço dedicado a conteúdos inspiracionais durante o evento.

“A Naturaltech é a maior feira do nosso setor, para produtos naturais e sustentáveis. Portanto, a nossa expectativa é aproveitá-la como uma grande vitrine para as marcas, para novos produtos da Amazônia e principalmente para que consumidores, distribuidores e parceiros vejam os produtos da floresta como um segmento com muito potencial. Seremos agricultores, indústrias, marcas e parceiros que fazem acontecer toda a cadeia de produtos da Amazônia. E estaremos lá buscando o cliente, que na minha opinião é o elo que completa um ciclo de negócios da floresta em pé, da produção sustentável, ao consumo consciente”, diz Paulo Reis,  um dos organizadores da participação do movimento Amazônia em Casa Floresta em Pé na NaturalTech e empreendedor da Manioca e da Amazonique.

A NaturalTech reúne anualmente o setor de produtos naturais, integrais, fitoterápicos e tratamentos complementares. Segundo a organização do evento, um mercado que cresce cerca de 4,4% ao ano, fazendo o Brasil ocupar o 4º lugar no ranking de faturamento mundial. 

A feira acontece no Pavilhão de Exposições do Anhembi, na Avenida Olavo Fontoura 1.451. A participação é gratuita, mas é preciso se inscrever no site do evento. 

Programa inicia capacitação dos vencedores da Chamada 2022

O programa de acesso a mercados Amazônia em Casa Floresta em Pé iniciou, no mês de maio, a jornada de capacitação prática do programa com os 20 empreendimentos  selecionados na mais recente edição da chamada de negócios da iniciativa, realizada entre março e abril deste ano. Essa fase terá a duração de seis meses e conta com aulas práticas, mentorias individuais e encontros presenciais, além da participação na NaturalTech. 

As aulas estão divididas em quatro módulos de estudo com foco na estruturação das operações comerciais, logísticas, de campanhas de marketing e mensuração de impacto. O objetivo é preparar e fortalecer as estratégias de cada marca na participação das campanhas previstas, nas feiras e eventos, bem como o aprimoramento da inteligência logística e comercial e a promoção do intercâmbio entre distintos empreendedores de impacto da Amazônia. 

Cada módulo conta com uma empresa parceira, que oferece capacitação – e também seus serviços – para os participantes do programa. Com foco em varejo, o módulo B2B tem o apoio da Local.e e visa ampliar a visão de mercado, aperfeiçoar a política comercial e fortalecer o plano e gestão de trade marketing. 

Já o módulo B2C é realizado em parceria com o Programa Empreender com Impacto, do Mercado Livre, e vai ajudar os negócios a criar uma loja virtual e implementar a estratégia de vendas online na plataforma, comunicar-se melhor com o consumidor final, acessar o ecossistema Mercado Livre e participar da gôndola virtual ‘Amazônia em Casa Floresta em Pé’, dentro da plataforma. 

O módulo de Logística conta com o apoio da Soulog Fulfillment, que se propõe a ampliar a visão da cadeia logística do negócio, otimizar rotas logísticas, desenvolver estratégias conjuntas de logística que possibilitem redução de custos, conhecer principais questões tributárias que incidem sobre o trânsito de mercadorias em território nacional e integrar operações comerciais e logísticas.

Uma das mais esperadas fases da jornada será o encontro presencial que acontecerá em São Paulo, após os participantes do programa exporem seus produtos em um estande compartilhado na feira da Naturaltech, nos dias 13 e 14 de junho. 

O foco do evento será em mensuração de impacto, onde serão realizadas oficinas sobre o tema do encontro e comunicação e visitas aos parceiros implementadores do programa (Soulog e Mercado Livre). 

Chamada 2022

Em abril de 2022, o programa abriu uma chamada para empresas ou organizações de base comunitária que atuam com produtos da sociobiodiversidade amazônica. A chamada alcançou 92 inscrições de 13 diferentes estados. Ainda que abaixo do número de inscrições esperado, o resultado foi considerado positivo pelos organizadores, considerando o cenário de pós-pandemia. 

O Pará foi o estado com maior número de iniciativas inscritas, com 45 negócios cadastrados; também tiveram destaque Amazonas e Rondônia, com 17 e 7 inscrições, respectivamente. Considerando as categorias de negócios, as inscrições contemplaram 14 microempreendedores individuais, 46 empresas, 13 associações, 9 cooperativas e 10 empreendimentos que ainda estão em fase de formalização. 

Entre os selecionados, estão oito empreendimentos comunitários e 12 novos negócios, representando seis Estados brasileiros: Amazonas, Pará, Rondônia, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. 

Além dos vencedores da chamada 2022, as ações do programa de capacitação também poderão ser acessadas pelos negócios membros que participaram das edições anteriores, somando mais de 35 iniciativas atendidas pelo programa. 

Conheça os negócios e organizações apoiadas no site oficial do movimento: amazoniaemcasa.org.br

Sobre o programa 

Criado em 2020, o movimento Amazônia em Casa Floresta em Pé é coordenado pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), pela AMAZ Aceleradora de Impacto e pela Climate Ventures e tem como propósito  destravar o acesso ao mercado para os produtores da sociobiodiversidade amazônica.

Tem como apoiadores Mercado Livre, a maior plataforma de e-commerce da América Latina, Fundo Vale, GIZ, CLUA, Instituto humanize e Instituto Clima e Sociedade.

A iniciativa busca reunir atores estratégicos e agir de forma colaborativa para superar gargalos e aumentar as vendas e o acesso a mercado destes empreendimentos a formas inovadoras e interessantes de comercialização.

Amaz Branding Lab - Zoide Creative

AMAZ Branding Lab: comunicação esteve no centro das atenções das startups em maio

Empreendedores, times da AMAZ e da FutureBrand SP – Foto: Zoid Creative

Nos dias 11 e 12 de maio, empreendedores e empreendedoras acelerados pela AMAZ estiveram em São Paulo para participar do AMAZ Branding Lab, promovido em parceria com a FutureBrand SP.

Ao longo de dois dias, foram oferecidos conteúdos, dinâmicas e ferramentas envolvendo posicionamento, storytelling, identidade visual e verbal, cultura e digital. Os empreendedores tiveram também a oportunidade de apresentar seus pitchs para o time da FutureBrand SP, que envolveu cerca de 20 pessoas no processo.

“É muito importante esse tipo de parceria porque trazemos para dentro de casa esses empreendedores que estão fazendo diferença, que são as marcas do futuro. É bacana nos conectar com eles, entender quais são essas iniciativas que estão emergindo no mercado e fazer com que nossos colaboradores possam ter contato com elas”, avalia Isabel Sobral, sócia-diretora da FutureBrand SP.

“É uma capacitação não só para os empreendedores o que acontece aqui, mas também para a gente. Nossos profissionais se preparam muito para esse tipo de oficina, buscam entender que startups são essas, que são futuros unicórnios da Amazônia, e conseguem trazer esse aprendizado para nossos outros clientes. Acreditamos muito nessa troca, entre o pequeno e o grande, que estão se unindo cada vez mais, criando esses laboratórios de inovação aberta. É de um valor imenso”, completa. 

Para Thiago Campos, da Floresta S/A, “a expertise da FutureBrand ajuda a ter clareza do que é preciso ajustar, e a gente espera que daqui venha um desdobramento que consiga realmente efetivar todas essas ferramentas que foram apresentadas em algo concreto para aplicar no nosso dia a dia.” 

“É preciso sempre aprimorar o nosso processo, já que temos um público bastante diverso, que vai desde o produtor que está na ponta da cadeia até o consumidor final, passando por parceiros e investidores. É muito importante termos essas inspirações com esses grandes profissionais”, avalia Jânio Rosa, da Inocas.

Alexsandro Vanin, da BRCarbon, concorda com Jânio e destaca a importância da oficina para exercitar soluções para a dificuldade, muitas vezes, de comunicar, de um jeito envolvente e humano, temas que são complexos e abstratos.

“Agora, com a cabeça em ebulição, temos o desafio de construir um plano de desenvolvimento para as startups, contando com a assessoria da equipe da FutureBrand SP, que é sensacional. Não temos palavras para resumir o quanto eles transferiram de conhecimento e de motivação para o desenvolvimento das nossas startups”, avalia o CEO da AMAZ, Mariano Cenamo.

Confira o clima do Lab:

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Isabel Sobral FutureBrand SP Zoid Creative

Marcas à prova de futuro: entrevista com Isabel Sobral

Isabel Sobral, FutureBrand SP/Zoid Creative

Negócios de impacto precisam comunicar com efetividade os impactos positivos, sociais e/ou ambientais, que fazem parte de seu propósito. O branding, as narrativas, a identidade verbal e visual, o tom de voz, tudo isso conta no contato com as diferentes audiências com as quais esses negócios dialogam.

A FutureBrand SP, especializada em criar marcas à prova de futuro, tem realizado, em especial na última década, parcerias com organizações da sociedade civil e negócios de impacto no sentido de traduzir em comunicação o impacto que essas instituições geram. 

Dentre essas organizações estão a própria AMAZ, o Idesam, a Climate Ventures e alguns negócios amazônicos, como Café Apuí, Seringô, Na’kau e 100% Amazônia. Segundo Isabel Sobral, sócia-diretora da FutureBrand SP, o trabalho com esse tipo de instituição traz conhecimento sobre temas importantes como mudanças climáticas, sistemas agroflorestais, economia regenerativa, mercado de carbono, e também profundidade em diferentes cadeias como a da moda, da pecuária, do óleo de palma e do cacau. 

“Cada projeto vira uma espécie de especialização em um assunto. E como falar de marcas a prova de futuro se não compreendermos esses temas? Nosso propósito é criar marcas que sejam à prova de futuro e, na minha opinião, só existirá um futuro para nós, seres humanos, se as marcas realmente se preocuparem e agirem em relação ao impacto que geram, minimizando os efeitos negativos, ampliando os positivos e estabelecendo modelos regenerativos em seus negócios. É uma mudança grande de paradigma que está em curso, e as novas gerações têm tudo para se conectarem a isso e fazerem a diferença”, diz Isabel.

Em maio, a parceria entre a FutureBrand SP e a AMAZ promoveu o AMAZ Branding Lab, uma oficina sobre comunicação para os negócios em aceleração neste ano de 2022. Na ocasião, Isabel conversou conosco sobre marcas do futuro, negócios de impacto e comunicação, o início do relacionamento com a aceleradora e tendências de consumo.

Como se deu a aproximação da Future Brand, responsável pelo branding de tantas grandes marcas e com presença no mercado, com negócios de impacto e organizações da sociedade civil? O que motiva essa relação?

Isabel Sobral (IS): Num nível pessoal, desde pequena sempre me conectei muito com questões ambientais, acho que essa coisa de sustentabilidade vem de berço, pela forma como nossos pais e avós nos ensinam a respeitar e honrar a natureza e nos dão oportunidades de viver experiências ligadas a isso. E, crescendo e vivendo num país tão desigual como Brasil, fui me conectando também às questões sociais. Em paralelo a isso, vim trabalhar na FutureBrand (FB), uma consultoria que de fato trabalha com grandes empresas, que geram impactos gigantes, tanto positivos quanto negativos.

Eu já estava há uns sete anos aqui na FB quando senti a minha maior inquietação, aquela crise da busca por um propósito maior. Eu pensei em sair, ir trabalhar em um lugar cheio de propósito, uma empresa B ou coisa do tipo. Por outro lado, também enxerguei que em poucos lugares eu teria um acesso tão fácil a altas lideranças das empresas quanto trabalhando aqui. E é justamente essa liderança que nos contrata como uma consultoria para mostrar o melhor caminho e estratégia de suas marcas para o futuro. Pronto! Eu estava com a faca e o queijo na mão.  

Faltava combinar com o resto da empresa e trazer a temática para a mesa. Começar a falar de sustentabilidade e mudanças climáticas aqui não foi algo rapidamente compreendido por todos, simplesmente parecia que esses temas não cabiam dentro do branding, quando na verdade branding está intrinsecamente ligado a reputação, que por sua vez está ligada ao modo como a marca se comporta diante da sociedade, como ela gera valor para seus stakeholders, quais são suas práticas socioambientais e etc. Era preciso trazer o tema, sensibilizar as pessoas, e foi assim que começamos a nos aproximar desse ecossistema de inovação para impacto.

O primeiro grande marco foi a parceria com a Climate Ventures, já no ano da sua fundação. Queríamos muito fazer algo junto e, desse anseio, veio a ideia de fazer um Comunicathon, que acabou virando um evento para mais de 100 pessoas onde unimos talks de representantes da Coca-Cola, Nespresso, Itaú e Social Docs e trouxemos talks internos sobre temas como Economia Circular no Design e Storytelling para a Sustentabilidade. Nos aproximamos do ecossistema, fui convidada para o Lab de inovação em Manaus, quando conheci o Idesam e o Mariano [diretor de novos negócios do Idesam e CEO da AMAZ]. 

Começamos a fazer projetos para diversas marcas, cada um pagava como podia, o importante era nos conectarmos e encontramos formas de ajudar e viabilizar os projetos. Nosso time foi aprendendo sobre o tema e virando especialista. Uma relação de criação de valor onde todo mundo sai ganhando. Depois veio a pandemia e mudamos o evento para o formato de oficina no online, em 2020 fizemos essa parceria com a PPA, via Programa de Aceleração, e com a Climate ventures novamente. E em 2021 nasceu a AMAZ, batizada por nós e que ganhou forma com essa identidade cativante.

Quantos cases desse tipo a FutureBrand SP já tem em seu portfólio?

IS: Temos uma longa história de projetos ligados a institutos, fundações e organizações da sociedade civil, como Instituto Ayrton Senna, Fundação Lehman e AACD por exemplo, mas não tínhamos no portfólio cases de impacto ligados a empresas de pequeno e médio porte como são as startups aceleradas pela AMAZ. Mas desde 2019, a partir do trabalho com a Climate Ventures, já trabalhamos com empresas e organizações como Boomera, Stattus 4, Confluentes, Seringô, Fundo Vale, Na’kau, Positive Ventures, Mombora, Café Apuí, Idesam, 100% Amazônia, Agropalma, etc. E com nossos grandes clientes também, ajudamos a criar plataformas de sustentabilidade como o Re. da Nestlé e o Cria! da Riachuelo, por exemplo. E temos vários outros casos em andamento.

Tem diferença entre criar para uma grande marca, de grande projeção no mercado, e para negócios de impacto e OSCs?

IS: Tem bastante. Os processos são mais ágeis, a governança bem mais simples e sem hierarquias, existe uma abertura enorme para o que a gente tem a propor. É um processo mais colaborativo, até porque escolhemos metodologias que proporcionam maior interação. O cliente grande quer ver a entrega pronta e não tem tempo para ficar se envolvendo tanto no processo. O clima costuma ser bem bacana nesses projetos para negócios de impacto e organizações que atuam nesse ecossistema, os times se sentem muito engajados e motivados. E a liberdade criativa que temos acaba ampliando nossas possibilidades de ganhar prêmios com esses cases, como ganhamos com a própria AMAZ e Mombora, por exemplo.

Para a Future, o que esse tipo de relação agrega como experiência?

IS: Traz conhecimento sobre temas importantíssimos como mudanças climáticas, sistemas agroflorestais, economia regenerativa, ESG, economia circular, mercado de carbono, assim como profundidade em diferentes cadeias de valor como a da moda, da pecuária, do leite, do óleo de palma e do cacau. Cada projeto vira uma espécie de especialização em um assunto. E como falar de marcas a prova de futuro se não compreendermos esses temas?

Como se deu a aproximação com a AMAZ e a criação da ID da aceleradora?

IS: Já havíamos feito projetos para o Idesam, Café Apuí e Fundo Vale. Todos bem-sucedidos. Era natural sermos considerados como uma opção para desenvolver o branding da AMAZ. Foi um projeto delicioso, que fluiu super bem, a meu ver com apostas extremamente acertadas na escolha do nome e da identidade.

A Future é nossa parceira há algum tempo, o que ela tem oferecido aos negócios do portfólio da AMAZ e como avalia essa conexão?

IS: Parece mesmo uma década de parceria, mas são somente três anos. Além das oficinas, temos muitas reuniões, às vezes surge uma nova ideia ou algum novo desafio, e acredito que, nas nossas trocas, conseguimos ajudar seja trazendo insights, seja apresentando parceiros. No ano passado plugamos a AMAZ a um parceiro nosso (a extinta Decode, que agora faz parte do nosso ecossistema FutureBrand) e eles fizeram entregas bem interessantes de social listening e performance no ambiente digital para as startups da AMAZ.

Negócios com propósito, que visam gerar impactos sociais e/ou ambientais, são o futuro das marcas? Como vê o comportamento do consumidor em relação a isso e à onda ESG?

 IS: Nosso propósito é criar marcas que sejam à prova de futuro e, na minha opinião, só existirá um futuro para nós, seres humanos, se as marcas realmente se preocuparem e agirem em relação ao impacto que geram, minimizando os efeitos negativos, ampliando os positivos e estabelecendo modelos regenerativos em seus negócios. É uma mudança grande de paradigma que está em curso, e as novas gerações têm tudo para se conectarem a isso e fazerem a diferença. E espero realmente que consigam.

O consumidor em si nem sabe o que é ESG, muitos ainda engatinham para entender o que é sustentabilidade, mas existe uma nova consciência. Lembro que há uns 10 anos ouvi falar em veganismo, e naquela época uma pessoa vegana era praticamente um ET. Hoje em dia é a coisa mais normal, isso mostra como várias coisas estão mudando no comportamento. 

O consumismo desenfreado também está em cheque. Virou cafona ser superconsumista. O desapego, a roupa de brechó, agora esse tipo de coisa é cool.

São mudanças que estamos vendo de verdade, talvez ainda um pouco nichadas, mas que vão ganhar escala. A quantidade de clientes e prospects que estão surgindo com essa pauta só cresce. Sinal de mudanças boas que vêm por aí.

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É chegada a hora de um novo olhar para os negócios de impacto na Amazônia

Foto: Divulgação SBSA

Entrevista com Aline Gonçalves Videira de Souza, sócia do Escritório SBSA

Organizações e startups de impacto são relativamente novas no país, e seu funcionamento demanda um ambiente jurídico favorável, com regulação e autorregulação em processo permanente de melhorias e adequações.

O crescimento da agenda ESG no Brasil é uma oportunidade para avançar mais rapidamente e buscar maturidade do impacto nos negócios. Essa é a visão de Aline Gonçalves Videira de Souza, sócia do Escritório SBSA (Szazi, Bechara, Storto, Reicher e Figueiredo Lopes Advogados), que assessora a AMAZ desde a sua criação e também os negócios acelerados.

Atuando no mercado jurídico há duas décadas, o SBSA tem seu trabalho focado em organizações da sociedade civil, como institutos, fundações e associações; responsabilidade social corporativa, projetos de investimento social privado, negócios de impacto e ações articuladas entre os setores público e privado. Possui unidades em Curitiba, São Paulo, e uma das sócias lidera projetos direto de Tel Aviv – Israel.

Sócia para Inovação, Negócios de Impacto e ESG no escritório, Aline vê um crescimento na quantidade de negócios e startups com compromisso de gerar impacto positivo: 

“Vejo que há o surgimento de um novo segmento econômico. Nos últimos anos, temos visto a criação de fomentos institucionalizados para esse perfil de negócios, como é o caso da AMAZ – Aceleradora de Negócios de Impacto na Amazônia, os programas do BNDES Garagem para acelerar negócios de impacto e diversas outras ações que vêm sendo geradas em razão da Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto, bem como de articulações do próprio ecossistema de empreendedorismo social, onde a Aliança pelo Impacto tem um protagonismo importante.”

Especificamente sobre o ecossistema de impacto da Amazônia, Aline aponta como desafios vencer a visão generalizada e simplista que ainda predomina sobre como são os negócios na região. 

“Quando falamos de Amazônia Legal, estamos diante de uma área que concentra mais da metade do território brasileiro, com muitas realidades e necessidades diferentes. Evidenciar que há portes e perfis bastante distintos de negócios na Amazônia é importante. Isso é relevante em razão da importância identitária e cultural, mas há efeitos ainda mais práticos, como é o caso de atração de investimentos e consumidores que sejam mais aderentes com a proposta daquele negócio.”

Confira a entrevista abaixo.

Como o Escritório SBSA tem trabalhado com organizações da sociedade civil e negócios de impacto?

Estamos no mercado jurídico há vinte anos, com atuação especializada em um nicho de atuação que usualmente não é vista em escritórios de advocacia. Assessoramos empresas e organizações da sociedade civil em temas de Responsabilidade Social Corporativa, Meio Ambiente e Direitos Humanos, bases da agenda ESG. Muitos de nossos clientes são fundações, associações e negócios de impacto socioambiental. Também temos uma área forte de direito público e assessoramos órgãos e projetos de interesse público. 

Somos seis sócios (maioria mulheres), com uma equipe de cerca de 30 profissionais que se dedicam a atender clientes tanto nacionais, quanto internacionais. Temos uma característica peculiar que é o nosso envolvimento direto para que o ambiente jurídico seja mais favorável às organizações e às startups de impacto. Por isso, por exemplo, tivemos uma atuação importante na formulação da Lei 9.790/99 (Lei das OSCIPs), na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU em 2006, na Lei 13.019/14 (Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil – MROSC). Mais recentemente, contribuímos na regulamentação da Lei Geral de Proteção de Dados, bem como na Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto.

Oferecemos uma atuação ampla de assessoria e representação para nossos clientes, com equipe especializada em diversas áreas do direito, incluindo tributário, trabalhista, societário, ambiental, direitos humanos, compliance, direito público, proteção intelectual, contratual, proteção de dados, contencioso, litígio estratégico, entre outras áreas de conhecimento  Apoiamos desde a estruturação inicial (com suporte para a criação de pessoas jurídicas e arranjos contratuais), passando por apoio na gestão e constante aperfeiçoamento dos projetos e iniciativas que nos são apresentados. Acreditamos que a atuação nessa área demanda um olhar especializado na legislação setorial e também a necessidade de contribuir com os debates em torno das tendências de regulação e autorregulação que estão em construção no Brasil e no mundo.

Como avalia o ecossistema de negócios de impacto no Brasil hoje?

Tem acontecido um crescimento na quantidade de negócios e startups que surgem com compromissos de gerar impacto positivo. Vejo que há o surgimento de um novo segmento econômico. Acompanhando esse fenômeno nos últimos anos, temos visto a criação de fomentos institucionalizados para esse perfil de negócios, como é o caso da AMAZe dos programas do BNDES Garagem para acelerar negócios de impacto, além de diversas outras ações que vêm sendo geradas em razão da Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto (Enimpacto), bem como de articulações do próprio ecossistema de empreendedorismo social. 

Com a pandemia, ficou evidente a importância desses negócios para a solução de problemas complexos em nossa sociedade. Alinho-me com a visão do último mapeamento realizado pela Pipe Social em 2021, de que é chegada a hora de agir mais rápido e buscar mais maturidade para os modelos de negócios. Adiciono a importância do amadurecimento das teses de impacto desses negócios, para que o novo segmento econômico se consolide em bases mais sólidas. Vejo que o  crescimento da visibilidade da agenda ESG é uma oportunidade para que isso aconteça.

Como o escritório vem se especializando nesta área?

A maior escola para a nossa constante especialização é dada pelo trabalho que desenvolvemos para os nossos clientes. Destaco alguns casos públicos onde a nossa atuação foi relevante, como é o caso da Primeira Debênture Social do País, onde assessoramos o Fundo Zona Leste Sustentável na estruturação do capital filantrópico daquela operação. A criação da AMAZ; a viabilização da iniciativa do Café Apuí, dentre tantos outros programas de integridade e diversidade que implementamos junto a nossos clientes.

É também essencial participar em cursos e oportunidades de formação – seja como professores, seja como alunos. Nos últimos anos, tive a oportunidade de ser aluna nos cursos de ESG e Investimentos Responsáveis na Capital Aberto e no IBGC. Neste ano, já tenho contribuído com aulas sobre o tema das Benefit Corporations nas aulas de ESG para Conselheiras ofertado pelo IBGC e sigo contribuindo no Grupo Jurídico do Sistema B, bem como acompanhando de perto publicações e pesquisas nesta área. Minha sócia, Èrika Bechara, é comentarista para questões ambientais na CNN e semanalmente se aprofunda em questões relevantes sobre o setor. 

Destaco também a importância de participarmos de espaços coletivos de diálogo, como é o caso das comissões na OAB, o Grupo Jurídico do Sistema B, entre outros. A nossa sócia Laís Lopes, por exemplo, é presidente da Comissão de Terceiro Setor da OAB/SP.

Tanto os sócios, como parte da equipe, somos profissionais com experiência no campo da sociedade civil organizada e negócios de impacto, sendo professores pós-graduados que ministram cursos relacionados aos temas em que atuam e participam de projetos de pesquisa e de consultoria de renomadas instituições de ensino como PUC/SP, FIA/USP e FGV. 

Estamos sempre envolvidos em estudos e pesquisas nos temas que trabalhamos. Como exemplo, fiquei muito feliz por ter lançado no ano passado, uma publicação sobre a regulação no Brasil das chamadas “empresas de propósito” a pedido do PNUD/SEGIB. Em nosso site, criamos uma aba SBSA+ onde divulgamos os materiais de referência dos temas que nos dedicamos.

Quais os desafios enfrentados pelos negócios de impacto que atuam na Amazônia?

Acredito que o primeiro deles é vencer a visão generalizada e simplista, que ainda predomina, sobre o perfil dos negócios na Amazônia. Me incomoda que, por vezes, não seja reconhecida a potência que as pessoas da região têm, ou uma visão de que, com poucos ajustes, seria possível adaptar modelos de negócios das regiões sul e sudeste do país. Quando falamos de Amazônia Legal, estamos diante de uma área que concentra mais da metade do território brasileiro, com muitas realidades desafiadoras, como queimadas, desmatamento, garimpo ilegal, violação à direitos humanos. Reconhecer a realidade é muito importante para que os negócios na região possam de fato contribuir para a superação de problemas socioambientais. Por isso, acho importante evidenciar que há portes e perfis bastante distintos de negócios na Amazônia. Conheço iniciativas na área de inovação e tecnologia que desenvolvem soluções para problemas sistêmicos de logística na região que outras empresas, e até mesmo o poder público, não chegaram a se dedicar. Isso é relevante pelo valor identitário e cultural desses negócios, mas há efeitos ainda mais práticos do reconhecimento dessas peculiaridades, como é o caso de atração de investimentos e de consumidores que sejam mais aderentes com a proposta daquele negócio.

Outro desafio ainda existente é com relação à celebração de contratos justos. Por vezes, os contratos privados celebrados entre comunidades locais da Amazônia Legal (como extrativistas, quilombolas e indígenas) e empresas ou investidores corporativos são complexos, de difícil compreensão e com regras desproporcionais. 

Há oportunidade de aperfeiçoar isso a partir de metodologias que possam apoiar na celebração de contratos justos entre essas partes, já que há um contexto crescente de interesse em iniciativas ligadas à economia verde e à biodiversidade. Além disso, comunidades têm desenvolvido negócios sustentáveis com potencial de crescimento e, cada vez mais, querem a proteção dos ativos e das pessoas com que trabalham. Estamos justamente desenvolvendo um projeto para apoiar na criação de uma metodologia para a celebração de contratos justos.

Os desafios regulatórios são muitos. É preciso destravar a agenda da bioeconomia, conforme importantes estudos já apontaram, em especial sobre o Sistema Nacional de Acesso ao Patrimônio Genético e ao Conhecimento Tradicional e a repartição de benefícios. Por fim, um desafio que não é exclusivo da Amazônia, tão comum em diversas localidades do nosso país, se deve à precária infraestrutura de acesso físico e virtual que, infelizmente, ainda se apresenta como uma barreira para o desenvolvimento de tantos negócios na região.

Como avalia a parceria com a AMAZ?

É uma grande honra e satisfação ser o escritório de advocacia responsável por assessorar a AMAZ e os negócios acelerados. Trata-se de um processo de mútuo aprendizado. Cada vez mais o escritório tem buscado atuar com linguagem simples e formas não convencionais para fazer com que as questões jurídicas sejam mais acessíveis aos diferentes públicos. Além disso, esse vínculo nos estimula a produzir arranjos jurídicos inovadores, já que estamos diante de iniciativas multissetoriais que estão na vanguarda dos investimentos sustentáveis. Além da AMAZ, o escritório é parceiro institucional do Prêmio Folha Empreendedor Social, realizado pela Folha de São Paulo e a Fundação Schwab, desde 2011. É signatário de diversas causas de interesse público, como o Pacto pela Democracia e a Coalizão pelos Fundos Filantrópicos.

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Amazônia em Casa Floresta em pé abre chamada para negócios da sociobiodiversidade

Criado em junho de 2020, o movimento Amazônia em Casa, Floresta em Pé abre 2022 como uma chamada de negócios direcionada ao apoio de 20 negócios e organizações de base comunitária que atuam com produtos da sociobiodiversidade amazônica. A iniciativa, coordenada pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), pela AMAZ Aceleradora de Impacto e pela Climate Ventures, tem como objetivo otimizar a logística e ampliar a visibilidade de mercado desses empreendimentos. As inscrições vão de 14 de março a 1º de abril, por meio do link amazoniaemcasa.org.br/chamada. 

Serão selecionados negócios de impacto que comercializam produtos amazônicos e tenham compromisso com a manutenção da floresta em pé. O passo seguinte é a participação em um programa de capacitação e impulsionamento com foco em logística e comercialização. 

Para Guilherme Faleiros, analista de seleção e aceleração da AMAZ e Idesam, essa primeira chamada de negócios foi motivada pela necessidade de acesso a mercados apresentada por pequenos empreendimentos que atuam na Amazônia e que enfrentam desafios em comum de comercialização e logística de seus produtos para o principal polo comercial do Brasil, a região Sudeste. 

“Juntos, nós iremos fortalecer nosso coletivo de marcas amazônicas e a nossa comunidade de aprendizagem. Serão trocas que desenvolvem soluções inovadoras e estratégias comerciais para levar os sabores e saberes tradicionais até a casa do consumidor brasileiro, conservando a floresta e gerando renda para populações locais”, exalta Guilherme. 

Podem se inscrever negócios de impacto que já possuem produto testado no mercado e atuação na Amazônia. A projeção é, em dois anos (isto é, dois ciclos de programa), apoiar 50 empreendimentos da sociobiodiversidade amazônica que contribuam para a conservação de 25 mil hectares de floresta e a geração de renda para mais de 1 mil famílias nas regiões de atuação. A expectativa é pela redução em 50% do custo logístico das operações dessas empresas e o aumento em 100% do faturamento das marcas envolvidas. 

Coordenado por Idesam,  AMAZ e Climate Ventures o movimento tem como parceiros estratégicos e financiadores Fundo Vale, GIZ, Mercado Livre e Instituto Humanize, além de contar com uma rede de parceiros formada por CLUA, Conexsus, Origens Brasil (Imaflora), Local.e, Instituto AUÁ e Costa Brasil.

Para mais informações ou esclarecimento de dúvidas, os interessados devem entrar em contato pelo e-mail amazoniaemcasa@prosas.com.br.   

Apoio regional 

Nos últimos dois anos, 15 negócios de impacto do Norte foram apoiados por meio de ações de campanhas de marketing com influenciadores digitais, em parceria com o Mercado Livre. Segundo Guilherme, o retorno foi positivo, com os negócios registrando aumento de vendas durante a ativação destas campanhas e podendo ampliá-las para Estados onde ainda não tinham clientes. 

CEO da Manioca, um dos empreendimentos apoiados pelo AMAZ, a empresária Joanna Martins aponta a aceleradora como essencial para o desenvolvimento da marca. “Foi uma ajuda que tornou nossa gestão mais madura e que ampliou os contatos da nossa rede por todo o Brasil. E isso seja pelo fortalecimento do olhar da bioeconomia na região e negócios de impacto ou pelo acesso a financiamento, crédito e orientação para uso dessas ferramentas. De modo geral, tudo o que a AMAZ nos trouxe foi fundamental para chegarmos ao estágio que estamos, com ótimos resultados e planos de crescimento, tanto de impacto quanto de retorno financeiro”, comenta.

>> Saiba mais sobre o movimento

https://amaz.org.br/2021/09/03/da-amazonia-para-voce-campanha-aproxima-empreendedores-amazonicos-de-consumidores-de-todo-o-brasil/

https://amaz.org.br/2021/04/05/amazonia-em-casa-floresta-em-pe-se-prepara-para-nova-fase/ 

https://amaz.org.br/2021/02/26/campanha-movimentou-vendas-online-para-negocios-amazonicos-no-fim-do-ano-de-2020/

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Entrevista: Denis Minev

Foto: Rodrigo Duarte/AMAZ

Quando o assunto é Amazônia, Denis Minev, CEO da Bemol e um dos investidores e fundadores da AMAZ aceleradora de impacto, é um interlocutor com experiências variadas e que compreende o papel dos diferentes players para impulsionar o ecossistema de impacto na região.

Minev foi Secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico do Estado do Amazonas, ocasião em que ajudou a desenhar instituições como a Fundação Amazonas Sustentável (FAS) – da qual é Conselheiro – e o Museu da Amazônia (Musa). 

É também um investidor anjo que toma riscos ao selecionar parte de seu portfólio de investimento por entender que isso é parte da busca de soluções de impacto positivo para a economia da região. 

Embora reconheça que o ecossistema de impacto é ainda incipiente, Minev vê em iniciativas como a AMAZ um catalisador de negócios que podem impressionar pelo exemplo e pelo impacto positivo gerado e, assim, atrair olhares e investidores que percebam como essa nova economia pode gerar boas oportunidades. 

Nessa entrevista concedida à AMAZ, Minev destaca a importância de aproveitar a onda de atenções voltadas à floresta para alavancar um desenvolvimento mais virtuoso, que olhe para a conservação da Amazônia, mas que também traga prosperidade às suas populações. 

“Tivemos três ondas de atenção à Amazônia. Perdemos as duas primeiras, que envolveram Chico Mendes e Marina Silva. Houve queda de desmatamento, mas não aconteceu uma proporcional melhoria das condições de vida.  Nosso papel é tentar aproveitar essa terceira onda, essa mobilização global que olha para a região com interesse, e tentar traduzir isso para o que seria uma visão de prosperidade na Amazônia.”

Como você avalia o ecossistema de impacto na região amazônica?

Denis Minev (DM) Tenho ainda a sensação de que ele é incipiente, o que me incomoda. E isso não é uma crítica aos empreendedores. Meu sonho é que o próximo Guilherme Leal (Natura) seja amazônico. Não estamos nesse ponto ainda, de ter essa qualificação entre os amazônidas. Então importamos. Uma coisa que eu esperaria dessa nova geração de negócios que estão sendo acelerados pela AMAZ é que plantassem essa semente um pouco mais profunda entre os ribeirinhos, com as comunidades com as quais têm contato, de modo a inspirar esse movimento.

O Idesam e a PPA (Plataforma Parceiros pela Amazônia) têm trabalhado nessa frente, e eu tenho trabalhado com o Idesam há alguns anos. É extraordinário o avanço. Mas é um avanço de uma base pequena, que ainda tem muito espaço para se desenvolver. Nós não temos, por exemplo, o empreendedor ribeirinho. Meu sonho é ter esse empreendedor, que saia lá da comunidade dele e consiga adquirir ao mesmo a educação suficiente e a visão de negócio, talvez influenciado por algumas dessas startups com as quais ele pode vir a ter algum contato.

O que é preciso para esse ecossistema se desenvolver mais rapidamente?

DM Acho que não dá para ser muito rápido, porque precisamos de exemplos. E não existe nada melhor de exemplo do que uma startup que dá certo. Então é preciso esperar elas darem certo para servirem de exemplo, para demonstrarmos que negócios sustentáveis de impacto na Amazônia são um bom negócio. Enquanto a gente não tem esses exemplos numa escala razoável, acho difícil acelerar muito. Tem gente que pensa em investir, mas não investe porque não está vendo a coisa acontecer. Para mim, a AMAZ é a tentativa do exemplo, é a gente apontar e mostrar que isso aqui dá certo.

E podemos fazer um pouco mais. Nas Chamadas de Negócio da AMAZ, vamos estimulando as pessoas a pensarem e a refletirem sobre como empreender. A AMAZ vai ser realmente impactante quando pegar pelo menos duas ou três dessas startups e elas tiverem um volume de sucesso razoável. Aí muda-se o jogo.

A Amazônia hoje está no centro das atenções. Como aproveitar esse momento para potencializar o desenvolvimento de novos negócios que gerem impactos positivos?

DM Hoje todo mundo só fala de Amazônia, é intenso esse movimento. Só que a pressão internacional não é pelo desenvolvimento da Amazônia, mas para proteger a floresta. Temos que buscar formas que estanquem o desmatamento e consigam melhorar a qualidade de vida das pessoas. E estamos aqui na AMAZ para equilibrar isso. Somos pequenos, mas se cada uma dessas empresas se multiplicar por 10, vamos ampliar o impacto. 

Quando eu estava no governo do Amazonas, estava sendo criado o Fundo Amazônia. Minha sugestão para eles era criar um fundo de venture capital, ou que enviassem os melhores profissionais para cá, para desenvolvermos negócios e empreendedores. Mas eles acabaram fazendo um fundo filantrópico para conservar a floresta.

Você pode defender a floresta contra o desmatamento, mas é preciso atacar o desmatamento oferecendo alternativas. Isso é algo geracional, vamos levar pelo menos 20 anos para mudar essa chave. Essa onda de atenções para a Amazônia está ainda no começo, espero que seja longa e duradoura. 

Na Concertação Amazônica, o que a gente quer é propor como podemos rematar a Amazônia nos tornando prósperos. Negócios como Inocas, BRCarbon e Floresta S/A, por exemplo, podem se tornar cases grandes, e se isso funcionar fortalecemos essa onda. 

A AMAZ também serve como uma espécie de carimbo e abre portas para os investidores certos, que têm esses valores.

Você tem dito que estamos na terceira onda de oportunidades para mudarmos a chave de desenvolvimento da Amazônia, e que perdemos as duas primeiras…

DM Já houve ondas de atenção à Amazônia, estamos na terceira delas. A minha visão é que desperdiçamos as duas anteriores, que vieram com Chico Mendes e Marina Silva. Houve queda de desmatamento, mas não aconteceu uma proporcional melhoria das condições de vida, e aí se desperdiçam os ganhos. Acho que nosso papel é tentar aproveitar essa onda, essa mobilização global, que olha para a Amazônia com interesse, mas com um grau também de desconhecimento, e traduzir isso para o que seria uma visão de prosperidade com sustentabilidade na região. 

Isso não pode vir de fora. Alguém de fora não vai conseguir imaginar o que quer dizer prosperidade na Amazônia. Olhar para um ribeirinho que hoje tem baixa educação, baixa expectativa de vida, e pensar nessa equação em como mudar a vida dele para que não precise mais de auxílio e consiga prosperar. Isso tem que vir da gente. E acho que essa construção é o que eu espero dessa onda de atenções internacionais. Que consigamos receber recursos e atenção e traduzir isso em prosperidade. 

Os negócios de impacto são os melhores para aproveitarmos essa terceira onda. São também importantes para transformar a região e inspirar outras iniciativas. 


O que seria a prosperidade amazônica?

DM Temos 25 milhões de pessoas na Amazônia brasileira. Temos ainda as outras Amazônias, vizinhas. Não é possível criar um cercado ao redor da floresta e tentar isolar essas 25 milhões de pessoas. É preciso encontrar uma solução, que vou chamar de prosperidade. Você espera que o seu filho tenha uma vida melhor que a sua e que o seu neto tenha uma melhor do que o seu filho. Não é nenhuma solução específica, mas é um princípio que deve reger também o tema ambiental. 

Meu avô, Samuel Benchimol, que era um estudioso da região e costumava escrever muito sobre o tema, sempre disse que a Amazônia precisa ser tratada em quatro bases – economicamente viável, socialmente justa, politicamente equilibrada e ambientalmente adequada. Qualquer solução para a região teria que passar por essas quatro bases. E ele escreveu isso nos anos 1980, mas continua aplicável em 2020, e infelizmente isso ainda segue ignorado por grande parte das pessoas que interagem com a região. 


>> Leia a entrevista com Antonio Ribeiro (Move Social) e Lucas Harada (Sense-Lab)

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Amaz promove primeira oficina presencial com negócios selecionados em 2021

Foto: Rodrigo Duarte/AMAZ

Todos os participantes estavam vacinados e devidamente testados contra a covid-19

Entre os dias 8 e 10 de março, empreendedoras e empreendedores dos seis negócios selecionados pela AMAZ em 2021 – BRCarbon, Floresta S/A, Inocas, Mahta, SoulBrasil Cuisine e Vivalá – participaram da primeira oficina presencial da jornada de aceleração, que aconteceu em Manaus, às margens do Rio Negro.

O encontro, facilitado pelo Sense-Lab, abordou OKRs (objetivos e resultados-chave), gestão de impacto socioambiental e estrutura e governança. 

As conexões marcaram os três dias. Artur Coimbra e Joanna Martins, fundadores de dois negócios do portfólio da AMAZ – Na’kau/Na Floresta e Manioca – relataram experiências, desafios e oportunidades de empreender na Amazônia e participaram de rodas de conversa com o grupo. 

Marcus Biazatti, do Idesam, conversou com os empreendedores e empreendedoras sobre a marca coletiva Inatú, que comercializa óleos essenciais produzidos por comunidades amazônicas e também trabalha com manejo sustentável de madeira. 

Foram apresentados resultados, impacto positivo gerado, metodologias de monitoramento, as nuances do relacionamento com comunidades e cadeias produtivas, empreendedorismo florestal, gestão de negócios e mercados.

Conectar empreendedores e empreendedoras com outros negócios de impacto já em atuação na Amazônia é uma das ofertas da jornada de aceleração, proporcionando trocas que podem encurtar a solução de problemas a partir de experiências similares anteriores. Além disso, as conexões têm potencial para gerar parcerias entre eles, seja no compartilhamento de experiências ou em estratégias de mercado. 

Investidores presentes

Foto: Rodrigo Duarte/AMAZ

Outra conexão proporcionada durante o encontro envolveu alguns investidores da AMAZ com atuação na Amazônia. 

Em uma roda de conversa com os negócios, Denis Minev, Ilana Minev, Marcelo Forma, Mariana Barella e Matheus Faria participaram de um diálogo franco e aberto, abordando temas como atual estágio do ecossistema de negócios de impacto na Amazônia, a importância de oferecer alternativas ao desmatamento que integrem as populações da região, a necessidade de se investir em pesquisa e desenvolvimento para alavancar uma nova economia na região e de envolver a academia.

O grupo destacou ainda a importância de perceber que há diferentes Amazônias, que requerem diferentes soluções, e por isso não há um caminho que vá ser comum a todos. A importância das novas gerações no desenho de uma nova economia amazônica e também de encontrar os investidores ‘certos’ para alavancar os negócios de impacto. 

Outro ponto abordado diz respeito ao perfil dos investidores e o que eles esperam das startups.

Para Daniel Cabrera, da Vivalá, os pontos altos da oficina foram o aprofundamento no alinhamento estratégico e avançar naquilo que foi construído no encontro de pré-aceleração, em novembro de 2021, além da revisão dos indicadores de impacto. Ele destaca também a conexão com investidores e negócios amazônicos: 

“A integração junto com os investidores da AMAZ, que são pessoas, essas que a gente conheceu, majoritariamente do norte, foi muito importante para que a gente se aproxime de atores relevantes da região, pessoas que estão diretamente no setor privado, gerando impacto. Além da integração com todos os outros empreendedores, que mesmo atuando em mercados muito diferentes contribuem de uma maneira muito rica com suas visões, suas experiências, e essa troca é extremamente relevante.”

“O ponto alto é justamente o encontro, o convívio entre esse grupo. E especificamente duas coisas para mim são muito valiosas. Uma foi o encontro com os investidores da região, e a outra coisa é o trabalho com o modelo de impacto, que acho que precisamos ainda aprofundar mais,” avalia Maximiliano Petrucci, da Mahta.

Para Letícia Feddersen, da SoulBrasil Cuisine, as conexões e vivências com os outros participantes da aceleração têm sido ricas e trazido bastante aprendizado, em especial nas questões de gestão e de pensar o impacto que pode ser gerado. Ela destaca também a conexão com outros negócios que atuam na Amazônia e com os investidores:

“Com o encontro com os investidores e outros negócios da região me senti como se estivesse passando por um “MBA” na cultura, na vivência e sobre os negócios da Amazônia. A conexão com outros negócios da região é muito rica, e vai além da aceleração, gerando trocas, sinergias até de possíveis parcerias comerciais”

>> Leia entrevista com Denis Minev

>> Conheça os seis negócios que participam dessa jornada de aceleração 

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AMAZ inicia aceleração dos seis novos negócios de impacto de seu portfólio

Foto: Andre Deak | Flickr

A jornada de aceleração dos seis negócios selecionados em 2021 para compor seu portfólio e receber investimento começa agora.

Durante o mês de janeiro, o time da AMAZ trabalhou com os empreendedores e empreendedoras no diagnóstico de suas necessidades para crescer e atingir escala, e a partir desse diagnóstico foi traçada a estratégia de aceleração.

Há demandas em comum e também necessidades muito particulares, e um dos grandes desafios é justamente oferecer às startups uma jornada de aprendizado e construção conjunta, associada  a assessorias e mentorias  customizadas para superar os desafios de crescimento de cada um.

A jornada de aceleração oferecida pela AMAZ tem o diferencial de oferecer soluções ‘à la carte’, customizadas para atender de fato às necessidades dos empreendedores e empreendedoras que atuam na região Amazônica.

Desse modo, o desenho do programa é variável a cada turma selecionada, buscando trabalhar diretamente nas questões diagnosticadas como fundamentais para o crescimento de cada negócio.

“Um dos maiores diferenciais da AMAZ é desenhar a aceleração de modo a atender as demandas reais dos negócios em vez de oferecer pacotes prontos. O time atua em parceria com os empreendedores e potencializa a troca de experiências e conexões entre eles agregando valor e buscando soluções inovadoras para as dores do grupo”, avalia Mariano Cenamo, CEO da AMAZ.

Encontros presenciais e assessorias começam nos próximos meses

A jornada de aceleração proposta pela AMAZ prevê duas oficinas presenciais, preparadas com todo o cuidado e em acordo com a situação sanitária trazida pela covid-19. O primeiro deles acontece em março.

Até lá, empreendedores e empreendedoras seguem trabalhando com o time da AMAZ em questões individuais e preparatórias para a primeira oficina presencial. A segunda oficina está inicialmente prevista para o mês de maio.

O acompanhamento dos especialistas da AMAZ será constante, em uma parceria que visa impulsionar os negócios e ajudá-los a crescer.

“Nosso time já está trabalhando com esses negócios de forma personalizada, vamos apoiá-los no refinamento do plano estratégico, plano de ação e teoria da mudança nesta primeira etapa. Durante toda jornada, nossos especialistas e parceiros terão como missão gerar valor, apoiar a gestão e abrir caminhos para as startups apoiadas, buscando alavancar seus resultados e impactos positivos na conservação da Amazônia”, analisa Ana Carolina Bastida, responsável pela gestão de investimentos e aceleração da AMAZ.

Para acompanhar o processo de aceleração dessa turma, fique de olho nas nossas redes!

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AMAZ seleciona 06 negócios inovadores para seu portfólio em 2022

Foto: Pré-aceleração da AMAZ (Obs.: todos os participantes estavam testados e imunizados contra a Covid-19)

Seis negócios de impacto com atuação na Amazônia Legal receberão investimentos da aceleradora

A AMAZ aceleradora de impacto concluiu o processo de seleção dos negócios que serão acelerados e investidos em 2022. 

Os seis negócios atuam com soluções inovadoras para o desenvolvimento de produtos e serviços em cadeias de valor estratégicas para a conservação da Amazônia em áreas como reflorestamento, projetos de carbono e conservação florestal, produção de óleos, alimentação e turismo de base comunitária. 

Os selecionados foram BrCarbon, Floresta S.A., Inocas, Mahta, Soul Brasil e Vivalá. Os negócios têm atuação nos estados do Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Roraima.

Os seis passarão por um processo de aceleração em 2022 e receberão investimento inicial de R$ 200 mil, havendo possibilidade de reinvestimento (follow) de outros R$ 400 mil ao final do processo. O grupo foi selecionado dentre 156 negócios inscritos na Chamada 2021 promovida pela AMAZ. 

“Ficamos muito impressionados com a qualidade dos negócios, a escala de impacto que podemos alcançar, e o potencial de construir na prática uma nova economia aliada à conservação florestal na Amazônia.”, avalia Mariano Cenamo, CEO da AMAZ.

O  potencial de impacto aproximado dos seis negócios selecionados, entre cinco e dez anos, inclui mais de um milhão de hectares de florestas preservados, mais de 700 mil toneladas de emissão de carbono evitadas anualmente, 3.700 hectares de florestas recuperadas, centenas de famílias beneficiadas e injeção de cerca de R$ 30 milhões em comunidades locais.

Conheça os negócios

BrCarbon = Climate Tech Brasileira voltada à conservação florestal e restauração ecológica especializada em projetos de carbono.  Com equipe altamente qualificada,  utiliza estratégias inovadoras e tecnologia de ponta para acelerar, multiplicar e consolidar projetos de carbono e gestão florestal no Brasil.

Floresta S.A. = Implanta modelos regenerativos de produção agroflorestal em escala, com um portfólio de 10 culturas agrícolas e madeireiras. Além de produtos da bioeconomia, traz ao mercado financeiro oportunidade de investimento direto em agrofloresta na Amazônia, com rentabilidade alvo de 17% ao ano. 

Inocas = Tem como objetivo gerar uma alternativa ao óleo de soja e palma, alavancando a cadeia produtiva da macaúba como fonte de óleos vegetais sustentáveis. O piloto da companhia está localizado na região do bioma cerrado no Alto Paranaíba, em MG, e terá implementado, até o final de 2021, o plantio de 2.000 hectares de macaúba em sistema agrossilvipastoril em parceria com agricultores familiares. Com a entrada na AMAZ, a empresa expandirá sua atuação para a Amazônia Legal em 2022. 

Mahta = Foodtech que atua na área de suplementos alimentares produzidos com ingredientes predominantemente provenientes de comunidades amazônicas. Objetiva gerar inovação e valor, além de reduzir os impactos ambientais negativos, por meio de cadeias produtivas com a participação de comunidades locais, modelo que pode ser replicado para uma mudança sistêmica na indústria alimentícia. Simultaneamente, entregará valor nutricional diferenciado aos consumidores, impulsionando a conservação e regeneração da Amazônia.

Soul Brasil Cuisine = Tem como missão apresentar produtos com ingredientes da biodiversidade brasileira – especialmente a amazônica – sustentáveis, orgânicos, veganos e livres de substâncias artificiais para o Brasil e o mundo. Está no mercado há quase três anos, presente principalmente em empórios e supermercados do eixo Rio e São Paulo, além de exportar para Estados Unidos e Europa. Os produtos têm certificação orgânica.

Vivalá = Realiza expedições em Unidades de Conservação brasileiras por meio do turismo de base comunitária. Promove o desenvolvimento socioambiental do país de modo inovador, unindo em expedições vivências com comunidades e natureza. Já engajou mais de 900 viajantes de 10 países e injetou R$ 627 mil diretamente em comunidades tradicionais pela compra de serviços de base comunitária. 

Sobre o processo de seleção

A Chamada 2021 promovida pela aceleradora recebeu 156 inscrições, das quais 12 foram selecionadas para participar de um processo de pré-aceleração que aconteceu em novembro, a partir de um encontro presencial em Presidente Figueiredo, no Amazonas.

Empreendedores e empreendedoras trabalharam na metodologia do Modelo C, buscando entender melhor o funcionamento de seus negócios e os impactos positivos que geram ou são capazes de gerar, além de refletirem sobre como podem melhorar tanto seus modelos de negócio como indicadores e narrativas de impacto que podem agregar ainda mais valor a eles. 

A imersão proporcionou muita troca e conexão, e o grupo construiu seus próprios modelos de negócio e matriz de impactos positivos, ao mesmo tempo em que generosamente contribuiu para a construção dos modelos de outros negócios. 

O desempenho dos negócios no processo de pré-aceleração, juntamente com diligências realizadas pelo time da AMAZ para conhecer melhor a atuação de cada um deles e a realização de pitchs em dezembro, com participação de investidores e parceiros, foram os fatores que determinaram a escolha.

Sobre a AMAZ

A AMAZ aceleradora de impacto é coordenada pelo Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia), e conta com um fundo de financiamento híbrido (blended finance) de R$ 25 milhões para investimento em negócios de impacto nos próximos cinco anos, o primeiro voltado exclusivamente para a região.  

Tem como fundadores e parceiros estratégicos Fundo Vale, Instituto humanize, ICS (Instituto Clima e Sociedade), Good Energies Foundation, Fundo JBS pela Amazônia e Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA). Conta também com uma ampla rede de parceiros como Move.Social, Sense-Lab, Mercado Livre, ICE, Costa Brasil, Climate Ventures e investidores privados. 

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Modelo C, aplicado na pré-aceleração da AMAZ, estimula que negócio e impacto sejam pensados conjuntamente

Foto: Antonio Ribeiro (Move Social) e Lucas Harada (Sense-Lab) durante a pré-aceleração da AMAZ | por Rodrigo Duarte – Odara Audiovisual

O Modelo C, metodologia utilizada na pré-aceleração da AMAZ, foi criado em parceria entre o Sense-Lab e a Move Social, com apoio do ICE e da Fundação Grupo Boticário. A partir de duas ferramentas que têm sido utilizadas para modelar negócios de impacto socioambiental – Business Model Canvas e Teoria de Mudança -, o Modelo C propõe uma abordagem que respeita, valoriza e se nutre das duas com o propósito de contribuir para amadurecer negócios de impacto, orientando e estimulando que o negócio e o impacto sejam pensados conjuntamente. 

Lançada em 2018, a ferramenta vem sendo aplicada em diversos processos de aceleração e formação, de diferentes perfis. Segundo levantamento realizado pelo Sense-Lab em novembro deste ano, já foram realizados 3.723 downloads do Guia do Modelo C, incluindo 24 estados brasileiros e 11 países. A ferramenta tem sido também objeto de estudos acadêmicos. 

O Modelo C foi utilizado pelo Programa de Aceleração e Investimento de Impacto da PPA, coordenado pelo Idesam e que evoluiu para a aceleradora independente AMAZ, que conclui em dezembro deste ano a seleção de sua primeira Chamada de Negócios. 

A última etapa do processo de seleção da AMAZ é a pré-aceleração, que aconteceu durante o mês de novembro a partir de um encontro presencial entre os empreendedores e empreendedoras finalistas em Presidente Figueiredo, no Amazonas. Durante um workshop de quatro dias, o Modelo C foi apresentado ao grupo de 12 negócios finalistas, que trabalhou nele em escala individual, com aplicação em seu próprio negócio, e coletiva, ao conhecer os outros empreendedores e se abrir a sugestões trazidas por eles a partir do desenho dos modelos de cada um.

A AMAZ conversou com Antonio Ribeiro, da Move Social, e Lucas Harada, do Sense-Lab, que facilitaram a aplicação do Modelo C junto ao grupo. Nessa entrevista, a dupla faz uma avaliação da ferramenta, sua aplicação junto a negócios com atuação no ecossistema amazônico e destaca ajustes que aos poucos vão se mostrando necessários desde a criação do Modelo C a partir da prática. 

De onde veio o estalo para criar o Modelo C?

Antonio Ribeiro (AR): As duas organizações, Move Social e Sense-Lab, têm a prática de trabalhar com negócios de impacto e de diferentes maneiras. E as duas já vinham se deparando com limitações de algumas abordagens e ferramentas. O Sense-Lab em relação ao Business Model Canvas e a Move em relação à Teoria de Mudança. Quando a gente sentava com um negócio de impacto e começava a pensar a Teoria de Mudança, percebíamos que ela não dava conta sozinha. Testamos algumas coisas e chegamos ao Canvas, que também não dava conta. Começamos a trocar ideias e veio um movimento de esboçar alguma coisa em conjunto. O que sabíamos de antemão é que não podia vir da nossa cabeça, porque não estávamos no campo, não estávamos liderando empreendimentos daquele tipo. Então seria preciso envolver de alguma maneira esses outros atores que estavam no campo.

Lucas Harada (LH): No Sense-Lab, estávamos trabalhando com programas próprios de aceleração e negócios de impacto. E ali a gente travava muito, porque olhar para impacto é olhar para toda uma questão de intencionalidade, ver no que a pessoa acredita, sua visão de mundo, enfim. É preciso uma descida tão grande que não é possível representar num modelo de negócios que traz só a proposta de valor, que é o Business Model Canvas. Criamos um Business Model mais voltado para impacto, mas percebemos que ainda não trazia o que era preciso. Porque a gente vivenciava com o empreendedor toda a jornada de impacto e o modelo não refletia isso. Não me lembro exatamente como foi a aproximação do Sense-Lab e da Move Social, mas o ICE foi um bom intermediador, me lembro de boas provocações dele. 

AR: O ICE tem um papel muito interessante, de instigar, trazer referências, e também na indicação da Fundação Grupo Boticário como apoiador. E teve toda uma construção envolvendo vários atores. O Modelo C tem coisas que a Teoria de Mudança não tem e que o Canvas também não, mas essencialmente é um instrumento que parte dessas duas ferramentas, que são já muito bem conhecidas. E isso dá uma legitimidade. 

Desde a criação do Modelo C, qual o balanço que vocês fazem sobre a implementação nos processos de aceleração em que têm trabalhado e os impactos?

AR: A aceitação e o uso têm sido bons. Tem uma diversidade grande de organizações usando, e até tese de mestrado sobre o Modelo C. A principal potência do Modelo C são as perguntas que ele traz para as pessoas. É uma ferramenta que não tem direito autoral, aberta para as pessoas usarem. O que percebemos nesse tempo todo é que quanto melhor é o apoio, a facilitação, melhor o Modelo C funciona. Já fizemos processos de disponibilizar o modelo para as pessoas preencherem e na sequência marcarmos uma reunião de duas horas, mas isso não tem funcionado bem para todo mundo. É um instrumento que ganha com facilitação, apoio e tempo. E o tempo tem nos mostrado também que está chegando a hora de fazer uma revisão. Seja para mudar os nomes nas caixinhas, seja para incluir o indivíduo. Ainda não temos consenso sobre isso, mas defendo que a gente precisa entrar com uma outra dimensão, que é a do indivíduo.

LH: O Modelo C, nesse formato que estamos aplicando com a AMAZ, na pré-aceleração, funciona muito bem. É um bom diagnóstico, um bom lugar de perguntas iniciais, um norte para se perceber o quanto se tem de clareza em relação ao negócio. E depois como ele se desdobra para um plano de desenvolvimento de ação. Mas o que eu sempre ouço é que, por mais que a gente tente envolver muitas organizações, muitas visões, ele ainda traz alguns formatos e nomenclaturas que geram dúvida. E também temos desafios na aplicação para modelos de negócios comunitários ou que têm menos essa pegada de empreendedor, de startup, são mais coletivos. 

A AMAZ está experimentando o Modelo C na pré-aceleração dos negócios, e antes, quando atuávamos como um programa no âmbito da PPA, a aplicação se dava com os negócios já em aceleração. É uma mudança de formato trazida pela nossa experiência para a AMAZ. Como vocês analisam isso? 

AR: Quando veio essa demanda da AMAZ, de incluir o Modelo C na pré-aceleração, analisamos que era muito pertinente. Já tínhamos usado o modelo como diagnóstico de negócios em 2020. Em dois ou três dias não conseguimos sair com um Modelo C super redondo. Temos qualificado, melhorado os passos que damos para que os negócios saiam com um modelo o mais redondo possível, mas não é tempo suficiente para saírem com tudo finalizado. Chegar ao fim de um processo de facilitação com o Modelo C pronto não é o ponto de chegada. O processo de reflexão dos empreendedores já mostra o momento em que estão em seus negócios, quais as fraquezas e forças. Muitas vezes tem gente que nunca pensou sobre impacto. E impacto pode ser pensado em diferentes níveis, em curto, médio e longo prazo, e uma coisa depende da outra. Colocar isso em caixinhas do Modelo C, bem, isso às vezes começa na oficina, mas leva um tempo. Então usar esse momento como diagnóstico é muito bom, e ser na pré-aceleração faz muito sentido para nós. Tanto para ajudar os empreendedores a saírem com bons modelos, que podem ser úteis para qualquer passo daqui em diante, sendo ou não selecionados para a aceleração da AMAZ, mas que também ajude a entender a maturidade dos negócios e das suas lideranças, a qualificar melhor o olhar para decidir quem fica e quem sai. 

LH: Tenho a mesma visão. O Modelo C é um bom processo como visão de diagnóstico. Ele também ajuda a trabalhar conceitos e contexto, porque negócio de impacto não é um tema bem difundido em todas as regiões do país. Então, quando estamos em uma região que está construindo um ecossistema, como é o caso da Amazônia, e às vezes a chamada de negócios traz alguns empreendedores que não estão familiarizados com esse universo, é importante ter um momento para sintonizar todo mundo. A aplicação do modelo na pré-aceleração tem um valor enorme para os negócios olharem para o seu impacto, descreverem indicadores, enfim. É um ganho muito bom, porque mesmo que essa organização não vá para a aceleração, pode aproveitar toda essa experiência para entrar em outras rodadas com parceiros e investidores. Sem falar na troca que esse processo promove, que talvez seja o mais rico disso tudo. O benefício não é só para as empresas que serão selecionadas, mas para todas as finalistas. 

AR: Essa troca que o Lucas mencionou é muito importante, e o Modelo C ajuda também nisso. Claro que ele pode ser aplicado como uma ferramenta apenas focada no negócio de cada um, o empreendedor senta e faz sozinho. Mas o modelo facilita também um processo coletivo. Cada um constrói o seu, mas vamos trocar? Colocar pessoas de diferentes lugares, com diferentes bagagens, para ouvir sobre os negócios e trazer sugestões? Isso é bem potente, e acontecer em uma pré-aceleração gera valor para todo mundo. Ajuda todo mundo a melhorar suas narrativas e o olhar para seus negócios. 

Que impressões vocês têm desse ecossistema em desenvolvimento na Amazônia e da aplicação do Modelo C em específico?

LH: Acho que o desenvolvimento desse ecossistema da forma como está acontecendo tem um valor muito grande. Temos uma conversa dentro do Sense-Lab que é sobre a serviço de quê estão os programas de aceleração. Porque isso diz muito sobre o potencial de um programa de aceleração. Quando você tem um programa que chama os negócios e diz que vai acelerá-los e que eles vão resolver problemas, vejo muitos limites e pouca conexão com a realidade dos negócios. E aqui, primeiro com o Programa de Aceleração da PPA e agora com a AMAZ, nos dois casos sob a coordenação do Idesam, vejo um crescimento muito significativo no fortalecimento desse ecossistema. Porque quando um programa sai da aceleração em si e amplia o olhar para resolver problemas comuns, como a logística, e traz parceiros e promove interação, avança no fortalecimento do ecossistema de fato. E isso é fundamental quando se quer trabalhar a economia local e envolver esses atores. E por isso eu acho que esse trabalho é muito reconhecido. Um valor que todo esse processo traz também é o investimento e o olhar para a Amazônia para além dos negócios. Traz atores muito diversos, e isso começa a ganhar força e a chamar a atenção. Colocar a Amazônia em evidência é uma coisa que várias organizações estão fazendo. Mas o Idesam, com a AMAZ e também desde o programa da PPA, conseguiu trazer uma visibilidade muito boa a tudo isso que vem sendo realizado.

AR: O Idesam entendeu há muitos anos que transformar a realidade da Amazônia não ia acontecer se não fosse coletivamente. Como algumas outras organizações que trabalham na Amazônia. Quando o Idesam, via PPA, cria o Programa de Aceleração, já existia ali essa premissa de que não se mudaria essa realidade senão juntando esforços. E a AMAZ segue, por ter o Idesam na sua gênese, em sua ancestralidade, essa premissa. De fazer junto, com diferentes setores, sejam atores que estão fazendo e pensando negócios, mas também investidores de perfis diversificados. 

Vocês mencionaram que em algum momento seria importante fazer revisões no Modelo C. Desse acúmulo todo, quais são as dores que ativam essa visão?

AR: São incômodos que a gente vem percebendo nas oficinas e nos processos. Em alguns casos já temos feito trocas e aplicado novas coisas. Precisamos fazer com que o Guia do Modelo C disponível para download também reflita isso. As perguntas do contexto, dos problemas, talvez também possam mudar. E há necessidade de ter uma caixinha para o indivíduo, que é sobre princípios, premissas, que tem a ver com o jeito de fazer daquele negócio, porque hoje não há espaço no modelo que capte o que provoca essas coisas. 

LH: Tem um outro ponto. Ter o frame ali e saber o que significa cada coisa não diz sobre como levar para uma aplicação, para o dia a dia. O guia mais explica o que é do que leva para a prática. E as mudanças para o Modelo C têm a ver com como se vivencia aquele experimento. A forma como a gente trabalha já é diferente desde quando lançamos o guia. E para mim tem um grande incômodo, que é na abordagem da capacidade organizacional. Falta o como fazer, que entra no aspecto de indivíduo, como Antônio falou, mas também numa questão de governança. Dá para ser mais provocativo em relação a isso. AR: Este ano, pela primeira vez, estamos testando alguns adicionais ao modelo, trazendo um instrumento para que os empreendedores façam uma autoavaliação depois de vivenciar o Modelo C. O quanto eles conhecem do contexto, o quanto perceberam preenchendo o modelo e refletindo sobre tudo isso. O empreendedor já sai com a percepção de como está, quais são os déficits, onde precisa buscar informações, o que precisa fazer para suprir o que está falho. Ele monta um gráfico aranha com as pontuações e vai perceber como está o seu desempenho no Modelo C. Estamos testando isso aqui pela primeira vez com a AMAZ. E tem uma coisa que pensamos lá no início, de criar um site, uma espécie de fórum, onde as pessoas poderiam colocar suas experiências. Tem muita coisa sendo feita, e seria interessante pegar essas experiências e compartilhar, ter talvez um banco de Modelos C.