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Modelo C, aplicado na pré-aceleração da AMAZ, estimula que negócio e impacto sejam pensados conjuntamente

Foto: Antonio Ribeiro (Move Social) e Lucas Harada (Sense-Lab) durante a pré-aceleração da AMAZ | por Rodrigo Duarte – Odara Audiovisual

O Modelo C, metodologia utilizada na pré-aceleração da AMAZ, foi criado em parceria entre o Sense-Lab e a Move Social, com apoio do ICE e da Fundação Grupo Boticário. A partir de duas ferramentas que têm sido utilizadas para modelar negócios de impacto socioambiental – Business Model Canvas e Teoria de Mudança -, o Modelo C propõe uma abordagem que respeita, valoriza e se nutre das duas com o propósito de contribuir para amadurecer negócios de impacto, orientando e estimulando que o negócio e o impacto sejam pensados conjuntamente. 

Lançada em 2018, a ferramenta vem sendo aplicada em diversos processos de aceleração e formação, de diferentes perfis. Segundo levantamento realizado pelo Sense-Lab em novembro deste ano, já foram realizados 3.723 downloads do Guia do Modelo C, incluindo 24 estados brasileiros e 11 países. A ferramenta tem sido também objeto de estudos acadêmicos. 

O Modelo C foi utilizado pelo Programa de Aceleração e Investimento de Impacto da PPA, coordenado pelo Idesam e que evoluiu para a aceleradora independente AMAZ, que conclui em dezembro deste ano a seleção de sua primeira Chamada de Negócios. 

A última etapa do processo de seleção da AMAZ é a pré-aceleração, que aconteceu durante o mês de novembro a partir de um encontro presencial entre os empreendedores e empreendedoras finalistas em Presidente Figueiredo, no Amazonas. Durante um workshop de quatro dias, o Modelo C foi apresentado ao grupo de 12 negócios finalistas, que trabalhou nele em escala individual, com aplicação em seu próprio negócio, e coletiva, ao conhecer os outros empreendedores e se abrir a sugestões trazidas por eles a partir do desenho dos modelos de cada um.

A AMAZ conversou com Antonio Ribeiro, da Move Social, e Lucas Harada, do Sense-Lab, que facilitaram a aplicação do Modelo C junto ao grupo. Nessa entrevista, a dupla faz uma avaliação da ferramenta, sua aplicação junto a negócios com atuação no ecossistema amazônico e destaca ajustes que aos poucos vão se mostrando necessários desde a criação do Modelo C a partir da prática. 

De onde veio o estalo para criar o Modelo C?

Antonio Ribeiro (AR): As duas organizações, Move Social e Sense-Lab, têm a prática de trabalhar com negócios de impacto e de diferentes maneiras. E as duas já vinham se deparando com limitações de algumas abordagens e ferramentas. O Sense-Lab em relação ao Business Model Canvas e a Move em relação à Teoria de Mudança. Quando a gente sentava com um negócio de impacto e começava a pensar a Teoria de Mudança, percebíamos que ela não dava conta sozinha. Testamos algumas coisas e chegamos ao Canvas, que também não dava conta. Começamos a trocar ideias e veio um movimento de esboçar alguma coisa em conjunto. O que sabíamos de antemão é que não podia vir da nossa cabeça, porque não estávamos no campo, não estávamos liderando empreendimentos daquele tipo. Então seria preciso envolver de alguma maneira esses outros atores que estavam no campo.

Lucas Harada (LH): No Sense-Lab, estávamos trabalhando com programas próprios de aceleração e negócios de impacto. E ali a gente travava muito, porque olhar para impacto é olhar para toda uma questão de intencionalidade, ver no que a pessoa acredita, sua visão de mundo, enfim. É preciso uma descida tão grande que não é possível representar num modelo de negócios que traz só a proposta de valor, que é o Business Model Canvas. Criamos um Business Model mais voltado para impacto, mas percebemos que ainda não trazia o que era preciso. Porque a gente vivenciava com o empreendedor toda a jornada de impacto e o modelo não refletia isso. Não me lembro exatamente como foi a aproximação do Sense-Lab e da Move Social, mas o ICE foi um bom intermediador, me lembro de boas provocações dele. 

AR: O ICE tem um papel muito interessante, de instigar, trazer referências, e também na indicação da Fundação Grupo Boticário como apoiador. E teve toda uma construção envolvendo vários atores. O Modelo C tem coisas que a Teoria de Mudança não tem e que o Canvas também não, mas essencialmente é um instrumento que parte dessas duas ferramentas, que são já muito bem conhecidas. E isso dá uma legitimidade. 

Desde a criação do Modelo C, qual o balanço que vocês fazem sobre a implementação nos processos de aceleração em que têm trabalhado e os impactos?

AR: A aceitação e o uso têm sido bons. Tem uma diversidade grande de organizações usando, e até tese de mestrado sobre o Modelo C. A principal potência do Modelo C são as perguntas que ele traz para as pessoas. É uma ferramenta que não tem direito autoral, aberta para as pessoas usarem. O que percebemos nesse tempo todo é que quanto melhor é o apoio, a facilitação, melhor o Modelo C funciona. Já fizemos processos de disponibilizar o modelo para as pessoas preencherem e na sequência marcarmos uma reunião de duas horas, mas isso não tem funcionado bem para todo mundo. É um instrumento que ganha com facilitação, apoio e tempo. E o tempo tem nos mostrado também que está chegando a hora de fazer uma revisão. Seja para mudar os nomes nas caixinhas, seja para incluir o indivíduo. Ainda não temos consenso sobre isso, mas defendo que a gente precisa entrar com uma outra dimensão, que é a do indivíduo.

LH: O Modelo C, nesse formato que estamos aplicando com a AMAZ, na pré-aceleração, funciona muito bem. É um bom diagnóstico, um bom lugar de perguntas iniciais, um norte para se perceber o quanto se tem de clareza em relação ao negócio. E depois como ele se desdobra para um plano de desenvolvimento de ação. Mas o que eu sempre ouço é que, por mais que a gente tente envolver muitas organizações, muitas visões, ele ainda traz alguns formatos e nomenclaturas que geram dúvida. E também temos desafios na aplicação para modelos de negócios comunitários ou que têm menos essa pegada de empreendedor, de startup, são mais coletivos. 

A AMAZ está experimentando o Modelo C na pré-aceleração dos negócios, e antes, quando atuávamos como um programa no âmbito da PPA, a aplicação se dava com os negócios já em aceleração. É uma mudança de formato trazida pela nossa experiência para a AMAZ. Como vocês analisam isso? 

AR: Quando veio essa demanda da AMAZ, de incluir o Modelo C na pré-aceleração, analisamos que era muito pertinente. Já tínhamos usado o modelo como diagnóstico de negócios em 2020. Em dois ou três dias não conseguimos sair com um Modelo C super redondo. Temos qualificado, melhorado os passos que damos para que os negócios saiam com um modelo o mais redondo possível, mas não é tempo suficiente para saírem com tudo finalizado. Chegar ao fim de um processo de facilitação com o Modelo C pronto não é o ponto de chegada. O processo de reflexão dos empreendedores já mostra o momento em que estão em seus negócios, quais as fraquezas e forças. Muitas vezes tem gente que nunca pensou sobre impacto. E impacto pode ser pensado em diferentes níveis, em curto, médio e longo prazo, e uma coisa depende da outra. Colocar isso em caixinhas do Modelo C, bem, isso às vezes começa na oficina, mas leva um tempo. Então usar esse momento como diagnóstico é muito bom, e ser na pré-aceleração faz muito sentido para nós. Tanto para ajudar os empreendedores a saírem com bons modelos, que podem ser úteis para qualquer passo daqui em diante, sendo ou não selecionados para a aceleração da AMAZ, mas que também ajude a entender a maturidade dos negócios e das suas lideranças, a qualificar melhor o olhar para decidir quem fica e quem sai. 

LH: Tenho a mesma visão. O Modelo C é um bom processo como visão de diagnóstico. Ele também ajuda a trabalhar conceitos e contexto, porque negócio de impacto não é um tema bem difundido em todas as regiões do país. Então, quando estamos em uma região que está construindo um ecossistema, como é o caso da Amazônia, e às vezes a chamada de negócios traz alguns empreendedores que não estão familiarizados com esse universo, é importante ter um momento para sintonizar todo mundo. A aplicação do modelo na pré-aceleração tem um valor enorme para os negócios olharem para o seu impacto, descreverem indicadores, enfim. É um ganho muito bom, porque mesmo que essa organização não vá para a aceleração, pode aproveitar toda essa experiência para entrar em outras rodadas com parceiros e investidores. Sem falar na troca que esse processo promove, que talvez seja o mais rico disso tudo. O benefício não é só para as empresas que serão selecionadas, mas para todas as finalistas. 

AR: Essa troca que o Lucas mencionou é muito importante, e o Modelo C ajuda também nisso. Claro que ele pode ser aplicado como uma ferramenta apenas focada no negócio de cada um, o empreendedor senta e faz sozinho. Mas o modelo facilita também um processo coletivo. Cada um constrói o seu, mas vamos trocar? Colocar pessoas de diferentes lugares, com diferentes bagagens, para ouvir sobre os negócios e trazer sugestões? Isso é bem potente, e acontecer em uma pré-aceleração gera valor para todo mundo. Ajuda todo mundo a melhorar suas narrativas e o olhar para seus negócios. 

Que impressões vocês têm desse ecossistema em desenvolvimento na Amazônia e da aplicação do Modelo C em específico?

LH: Acho que o desenvolvimento desse ecossistema da forma como está acontecendo tem um valor muito grande. Temos uma conversa dentro do Sense-Lab que é sobre a serviço de quê estão os programas de aceleração. Porque isso diz muito sobre o potencial de um programa de aceleração. Quando você tem um programa que chama os negócios e diz que vai acelerá-los e que eles vão resolver problemas, vejo muitos limites e pouca conexão com a realidade dos negócios. E aqui, primeiro com o Programa de Aceleração da PPA e agora com a AMAZ, nos dois casos sob a coordenação do Idesam, vejo um crescimento muito significativo no fortalecimento desse ecossistema. Porque quando um programa sai da aceleração em si e amplia o olhar para resolver problemas comuns, como a logística, e traz parceiros e promove interação, avança no fortalecimento do ecossistema de fato. E isso é fundamental quando se quer trabalhar a economia local e envolver esses atores. E por isso eu acho que esse trabalho é muito reconhecido. Um valor que todo esse processo traz também é o investimento e o olhar para a Amazônia para além dos negócios. Traz atores muito diversos, e isso começa a ganhar força e a chamar a atenção. Colocar a Amazônia em evidência é uma coisa que várias organizações estão fazendo. Mas o Idesam, com a AMAZ e também desde o programa da PPA, conseguiu trazer uma visibilidade muito boa a tudo isso que vem sendo realizado.

AR: O Idesam entendeu há muitos anos que transformar a realidade da Amazônia não ia acontecer se não fosse coletivamente. Como algumas outras organizações que trabalham na Amazônia. Quando o Idesam, via PPA, cria o Programa de Aceleração, já existia ali essa premissa de que não se mudaria essa realidade senão juntando esforços. E a AMAZ segue, por ter o Idesam na sua gênese, em sua ancestralidade, essa premissa. De fazer junto, com diferentes setores, sejam atores que estão fazendo e pensando negócios, mas também investidores de perfis diversificados. 

Vocês mencionaram que em algum momento seria importante fazer revisões no Modelo C. Desse acúmulo todo, quais são as dores que ativam essa visão?

AR: São incômodos que a gente vem percebendo nas oficinas e nos processos. Em alguns casos já temos feito trocas e aplicado novas coisas. Precisamos fazer com que o Guia do Modelo C disponível para download também reflita isso. As perguntas do contexto, dos problemas, talvez também possam mudar. E há necessidade de ter uma caixinha para o indivíduo, que é sobre princípios, premissas, que tem a ver com o jeito de fazer daquele negócio, porque hoje não há espaço no modelo que capte o que provoca essas coisas. 

LH: Tem um outro ponto. Ter o frame ali e saber o que significa cada coisa não diz sobre como levar para uma aplicação, para o dia a dia. O guia mais explica o que é do que leva para a prática. E as mudanças para o Modelo C têm a ver com como se vivencia aquele experimento. A forma como a gente trabalha já é diferente desde quando lançamos o guia. E para mim tem um grande incômodo, que é na abordagem da capacidade organizacional. Falta o como fazer, que entra no aspecto de indivíduo, como Antônio falou, mas também numa questão de governança. Dá para ser mais provocativo em relação a isso. AR: Este ano, pela primeira vez, estamos testando alguns adicionais ao modelo, trazendo um instrumento para que os empreendedores façam uma autoavaliação depois de vivenciar o Modelo C. O quanto eles conhecem do contexto, o quanto perceberam preenchendo o modelo e refletindo sobre tudo isso. O empreendedor já sai com a percepção de como está, quais são os déficits, onde precisa buscar informações, o que precisa fazer para suprir o que está falho. Ele monta um gráfico aranha com as pontuações e vai perceber como está o seu desempenho no Modelo C. Estamos testando isso aqui pela primeira vez com a AMAZ. E tem uma coisa que pensamos lá no início, de criar um site, uma espécie de fórum, onde as pessoas poderiam colocar suas experiências. Tem muita coisa sendo feita, e seria interessante pegar essas experiências e compartilhar, ter talvez um banco de Modelos C.

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