Em março, participantes e apoiadores do movimento Amazônia em casa, Floresta em pé estiveram reunidos para avaliar as atividades realizadas em 2020 e traçar exercícios de futuro.
Iniciado em junho do ano passado, o movimento foi uma das soluções desenvolvidas para os negócios amazônicos continuarem suas vendas durante a pandemia, incentivando a adoção de estratégias de e-commerce.
Como resultado, negócios que tiveram drástica redução nas vendas em 2020 (queda de 70% a 90% no faturamento) começaram sua jornada no e-commerce e colheram bons resultados, seja em venda ou visibilidade.
Iniciado a partir de um projeto piloto em junho de 2020, em parceria com o Mercado Livre, o movimento foi crescendo e se desdobrando, com marcos de ativação específicos em setembro, mês da Amazônia, na Green Friday em novembro e também por ocasião do Natal.
Dentre as estratégias e ações adotadas pelo movimento, estão soluções na área de logística e armazenagem – consolidação de estoque compartilhado em São Paulo, coordenação logística, manuseio e entrega ao consumidor final, entregas em 24 horas em São Paulo e em 48h para outros lugares do Brasil, subsídio de frete, taxas e armazenagem, transferência gratuita de mercadorias na rota Manaus – São Paulo. Na área comercial, desenvolveu-se forma exclusiva para vendas B2B, além da criação de catálogo e materiais comerciais, cestas corporativas e para B2C.
Na área de comunicação e marketing, o movimento promoveu a ativação de influenciadores por meio de lives com empreendedores amazônicos, contato com formadores de opinião, além de desenvolver identidade e site voltado à iniciativa. Uma rede de 35 influenciadores digitais, entre jornalistas, chefs de cozinha, artistas e profissionais de nutrição e saúde foi envolvida nas ações de ativação.
Soluções para desafios de 2020 guiam os próximos passos
Os próximos passos do movimento incluem a busca de soluções para uma série de desafios que se colocaram no aprendizado ao longo de 2020, classificadas em dois eixos: acesso a mercado para a sociobiodiversidade amazônica e estruturação do movimento.
No primeiro eixo, os desafios estão colocados na estruturação base dos negócios amazônicos, na ampliação e consolidação da infraestrutura logística e comercial de acesso a mercado, no escalonamento das soluções logísticas comerciais para incluir mais negócios amazônicos, em ampliar a rastreabilidade dos produtos e em impulsionar a bioeconomia da floresta em pé.
Já no eixo de estruturação do movimento, as propostas incluem a estruturação da governança e do núcleo operacional, estratégias de financiamento em médio e longo prazos, viabilizar a mensuração de impacto positivo na ponta, desenvolvimento de plano de membresia, fortalecimento da frente comercial e das estratégias de comunicação e marketing, integração e automação de base de dados de estoque e logística.
O grupo que integra o movimento Amazônia em casa, Floresta em pé inclui 16 marcas amazônicas – das quais dez integram o portfólio do Programa de Aceleração da PPA – e é uma realização do Mercado Livre, Programa de Aceleração e Negócios de Impacto da PPA, Idesam e Climate Ventures. Tem co-realização de Amazônia Hub, Biobá e Instituto Auá, parceria da Costa Brasil, Lothar Consultoria e Logística e Origens Brasil e apoio institucional do Fundo Vale, Instituto Clima e Sociedade, Climate and Land Use Alliance e Instituto Humanize.
A continuidade da campanha Amazônia em casa, Floresta em pé no último trimestre de 2020 computou em vendas para os negócios amazônicos, somente via Mercado Livre, R$ 65.835,00, um aumento de 7,4% em relação aos meses anteriores.
Lançada em setembro passado como alternativa para ajudar a alavancar as vendas dos negócios amazônicos, prejudicadas pela pandemia da covid-19, a iniciativa despertou vários empreendedores para o comércio online e fez com que aqueles que já visualizavam essa possibilidade, ou mesmo que já davam seus primeiros passos nessa modalidade de vendas, acelerassem o processo.
A campanha contou com ativações em novembro, por conta da Green Friday, e em dezembro, estimulando compras com propósito no Natal.
Durante a Green Friday, a ativação da campanha se concentrou em empreendimentos que trabalham com artesanato e moda, e promoveu lives com as influenciadoras Mona Soares, Alessandra Luglio e Laura Mocellin Teixeira, que tiveram participação de Tainah Fagundes (Da Tribu) e de Francisco Samonek (Seringô), além da coordenadora do Programa de Aceleração e Investimento de Impacto da PPA, Ana Bastida.
Como parte da experiência da campanha, os negócios participantes sugeriram reverter 10% do valor das vendas de cestas de produtos (20 unidades, em tiragem limitada) para um dos negócios do portfólio do Programa de Aceleração da PPA, o Serras Guerreiras de Tapuruquara, que teve suas atividades – turismo indígena de base comunitária – completamente paralisadas por causa da pandemia.
Os negócios também trabalharam juntos na elaboração de um manifesto, que traduz o sentimento e o propósito da atuação conjunta, como grupo que se concentra em torno de um mesmo propósito, que é conservar a floresta, valorizar os saberes regionais e gerar renda para suas populações.
“Em uma experiência de cocriação, desenhamos junto aos empreendedores esta edição da campanha, com ainda mais propósito e fomento do consumo consciente de produtos amazônicos. Tivemos maior participação deles na definição das estratégias e ações, com a intenção de dar destaque para essa união entre eles, buscando o mesmo propósito”, avalia Guilherme Faleiros, analista de novos negócios do Idesam.
A experiência da campanha na Green Friday é um dos cases citados no guia Jornada da Estratégia Comercial: um guia para negócios de impacto. Resultado de uma parceria entre o Mercado Livre e o ICE, a publicação apresenta uma jornada para orientar e nortear o empreendedor de impacto na construção e implementação da estratégia comercial de seu negócio.
Também em novembro, o movimento Amazônia em casa, Floresta em pé – que reúne as marcas e organizações empenhadas em gerar impacto social e ambiental positivo na Amazônia, e que promove as campanhas de ativação para incentivar as vendas online dos negócios participantes – ganhou um site próprio.No Natal, o foco da campanha foi ampliado para todos os negócios, incluindo gastronomia. Os empreendedores envolvidos divulgaram a movimentação em suas redes, e houve também ativação com duas influenciadoras: Day Molina, estilista e ativista indígena que promoveu uma live com participação de Amanda Santana (Tucum); e Bel Coelho, Chef do restaurante Cuia, em São Paulo, que preparou uma receita de baião de dois amazônico enquanto conversava com Joanna Martins (Manioca).
Joanna Martins, CEO da Manioca, avalia que a ativação feita pelas lives com influenciadores impactou positivamente a visibilidade e as vendas do negócio.
“Estar na plataforma do Mercado Livre por si só não daria nem metade do retorno que a gente registrou em vendas com as campanhas. Hoje o e-commerce representa 20% das nossas vendas, e esse percentual foi crescendo ao longo do segundo semestre graças a essa movimentação e às lives das quais a gente participou,” avalia.
Outro ponto destacado por ela é o reforço que a campanha virtual trouxe também para as vendas voltadas a food services e no varejo como um todo: “As campanhas foram fundamentais para a nossa sobrevivência no período da pandemia, e até mesmo para a retomada de faturamento, que talvez nem fosse possível sem a participação e esse aumento de vendas online.”
A CEO da Manioca aponta que a realização de lives com formadores de opinião em torno do movimento Amazônia em casa, Floresta em pé foi “uma boa sacada”, por conseguir engajar influenciadores com maior alcance em torno de um propósito comum. “Para nós, negócios pequenos, é mais difícil engajar um formador de opinião para apoiar uma marca. Mas convencê-lo a apoiar um grupo de marcas com propósito é mais viável. “
Para a Peabiru Produtos da Floresta, o apoio do Programa de Aceleração nessa frente de e-commerce foi importante para garantir um bom faturamento de vendas via Mercado Livre em 2020.
“Do faturamento que tivemos no último período do ano, cerca de 35% foi obtido graças às campanhas de Green Friday e Natal, ao engajamento nas campanhas e ao apoio prestado pelo Amazônia Hub na divulgação, comercialização e em parte da operação logística,” avalia Hermógenes Sá, Diretor da Peabiru.
“Em comparação ao período passado, são números que nos fazem crer que alcançaríamos resultados bastante significativos em condições normais. Nossa participação nesse movimento, tanto em questão de visibilidade como em vendas, nos faz apostar cada vez mais nessa parceria, acreditando que em um futuro próximo estaremos consolidados no mercado.”
Avanços na logística para produtos amazônicos
No período em que se desenvolveram as duas campanhas, a parceria entre Costa Brasil, Lothar Logística, Idesam e Climate Ventures, cujo objetivo é promover o acesso de marcas da sociobiodiversidade amazônica ao mercado nacional, se consolidou.
A Costa Brasil, especializada em transporte multimodal com atuação em todo o território brasileiro, se comprometeu a realizar franquias de transferência semanal de cargas nas rotas Manaus-São Paulo e São Paulo-Itajaí, além de armazenagem nas localidades de Manaus, São Bernardo do Campo, Guarulhos e Itajaí. Passou também a se responsabilizar pelo serviço de manuseio (etiquetagem e embalagem dos produtos).
O arranjo logístico representa grande avanço para os negócios que geram impacto positivo na Amazônia, facilitando o acesso aos produtos, trazendo redução de frete e rapidez de entrega, já que os produtos ficam armazenados no sudeste do país.
A parceria inclui ainda a elaboração de estudo e assessoria de logística da cadeia de cada empreendedor, além de investimento em estações sustentáveis de carga em geral (contêineres), em ações de fomento à cadeia sustentável, disponibilização de ferramentas/sistemas para otimização de frete, dentre outros pontos.
“Em 2020 em especial ficou evidente o quanto é importante dominar essas operações para colocar os produtos de impacto da Amazônia em condições mais competitivas nos mercados do sul e sudeste do Brasil. Nós construímos uma série de soluções de armazenamento, transporte, distribuição e estocagem, que já estão colocadas à disposição dos negócios, e esperamos que no futuro as soluções cresçam cada vez mais”, avalia o coordenador do Programa de Aceleração da PPA e diretor de novos negócios do Idesam, Mariano Cenamo.
Próximos passos
O grupo que integra o movimento Amazônia em casa, Floresta em pé inclui 16 marcas amazônicas – das quais dez integram o portfólio do Programa de Aceleração da PPA – e é uma realização do Mercado Livre, Programa de Aceleração e Negócios de Impacto da PPA, Idesam e Climate Ventures. Tem co-realização de Amazônia Hub, Biobá e Instituto Auá, parceria da Costa Brasil, Lothar Consultoria e Logística e Origens Brasil e apoio institucional do Fundo Vale, Instituto Clima e Sociedade, Climate and Land Use Alliance e Instituto Humanize.
Após a movimentação de 2020, seus integrantes avaliam neste momento o desempenho das campanhas e traçam novos passos e possíveis datas para novas ativações, incentivando os negócios a se manterem ativos no e-commerce e a promoverem as marcas em suas redes sociais.
“O incentivo ao e-commerce e a visibilidade, resultados do movimento, foram importantes para dar o fôlego que esses negócios precisavam, diante do cenário adverso de pandemia. Mas, para além disso, o programa entende o valor de liderar esforços para abertura de novos mercados aos negócios da Amazônia, diante de desafios de logística e acesso a mercados peculiares da região. Para 2021, iremos potencializar nosso apoio ao movimento, buscando ativar novas campanhas, mas também criar uma frente de abertura de mercado para o B2B (empresas para empresas), buscando chegar no médio e grande varejo”, avalia Ana Bastida, coordenadora do Programa de Aceleração e Investimento de Impacto da PPA.
A conhecida frase “se a vida te der limões, faça uma limonada” nunca fez tanto sentido para a Maneje Bem, startup acelerada em 2020 pelo Programa de Aceleração e Investimento de Impacto da PPA.
Com o isolamento social imposto pela pandemia da covid-19, a empresa investiu em tecnologia para continuar oferecendo sua solução ao mercado, o que trouxe ampliação do número de clientes e economia de recursos com a digitalização das visitas em campo.
A Maneje Bem tem como objetivo principal a estruturação de sistemas agrícolas produtivos, com foco na indústria. Por meio de uma plataforma, acessível via web e aplicativo, realiza a captação de dados do campo favorecendo o planejamento de ações e acompanhamento de impactos relacionados à sustentabilidade.
“Fazemos isso para que a indústria tenha responsabilidade socioambiental junto aos pequenos produtores, garantindo para eles renda e qualidade de vida”, define Caroline Luiz Pimenta, umas das fundadoras da empresa.
O trabalho se dá em três pilares: diagnóstico, inserção da tecnologia do aplicativo no dia a dia do agricultor e treinamento. Antes da pandemia, diagnóstico e treinamento eram realizados presencialmente. Em 2020, migraram para o online, e os resultados surpreenderam Caroline.
“Tivemos benefícios gigantescos. O engajamento dos produtores foi altíssimo, e conseguimos reduzir gastos e ter os mesmos resultados. As visitas presenciais passaram a ser pontuais, e feitas de forma mais inteligente. Reestruturamos nossa metodologia, ganhamos agilidade no processo de diagnóstico e ainda conseguimos mostrar para os nossos clientes a importância da transformação digital. ”
O número de clientes da Maneje Bem mais do que dobrou em quantidade de projetos. A equipe foi ampliada, como também os parceiros.
Amazônia
Selecionada para participar do Programa de Aceleração e Investimento de Impacto da PPA em 2020, a Maneje Bem não está sediada na Amazônia, mas se preparava para constituir CNPJ na região, uma das exigências da Chamada de Negócios do Programa para startups que traziam soluções para a Amazônia, embora não estivessem fisicamente sediadas ali. No entanto, com a chegada da pandemia, esse passo teve que ser suspenso temporariamente.
Para Caroline, a possibilidade de ser acelerada pelo Programa e de trabalhar junto ao Idesam, com a cadeia produtiva do guaraná na Amazônia, foram grandes oportunidades em 2020. “Começamos agora em 2021 um processo de levantamento de indicadores, que poderão ser acompanhados durante esse processo de transformação digital. Conhecemos o sistema produtivo do guaraná e vamos trabalhar junto com a Aliança Guaraná de Maués, a Ambev, o Idesam e outros parceiros que estão envolvidos também nesse processo. ”
Caroline diz que a participação no Programa de Aceleração, por meio da jornada digital desenvolvida especialmente para atender aos empreendedores durante a pandemia, levou à empresa conhecimento que foi aplicado diretamente ao negócio, em áreas como definição de indicadores de impacto, mensuração e posicionamento de marca.
Além disso, ela destaca a importância da conexão com os empreendedores e o ecossistema de impacto da Amazônia para ter um melhor entendimento da região e possibilitar o desenvolvimento do trabalho com a cadeia do guaraná em Maués.
Futuro
Os planos para 2021 são amplos, e se iniciam pela reestruturação da equipe e otimização de processos a partir do aprendizado de 2020.
Outra novidade é a estruturação de um setor comercial ativo, que antes não existia na Maneje Bem. O negócio estabeleceu metas de venda e implementação de projetos para 2021.
“Nosso objetivo central é ser referência no processo de transformação digital no campo para o desenvolvimento sustentável de comunidades rurais. Estamos colocando em prática todo o aprendizado que tivemos ao longo dos anos para alcançar esse objetivo o mais rapidamente possível, ” diz Caroline.
Hoje a Maneje Bem tem projetos estruturados em 13 municípios do Maranhão e inicia expansão para os estados do Piauí e Pernambuco, com a cadeia da mandioca. Além do guaraná em Maués, a startup tem projetos aprovados junto à cadeia de cacau no sul da Bahia, um deles com a empresa de chocolates Dengo. Em parceria com a Embrapa, desenvolve também um módulo para a cadeia produtiva de suínos e aves para o estado de Santa Catarina.
Além de tudo isso, a Maneje Bem, em parceria com outras organizações, elabora um projeto para atuação junto a comunidades indígenas em Rondônia e no Mato Grosso. A partir de um diagnóstico, o projeto visa desenvolver as comunidades indígenas, buscando ampliar sua produção com finalidade de comercialização.
“Hoje eles produzem para subsistência, e nossa ideia é que eles consigam produzir mais e tenham conexão com a indústria. E para isso vamos usar muita tecnologia, inclusive advinda de outros países como, por exemplo, Israel. O objetivo do projeto é conter o desmatamento e suas respectivas emissões de Gases de Efeito Estufa em áreas indígenas, ampliando o acesso a serviços sociais, infraestrutura econômica e serviços e apoio às atividades produtivas, diz Caroline. “Vamos ajudar na melhoria das técnicas, tanto para conservação da floresta quanto para extrair o melhor retorno econômico para eles, otimizando o potencial produtivo que eles já têm. ”
Integrante da turma 2019 do Programa de Aceleração e Investimento de Impacto da PPA, a Manioca se prepara para um 2021 agitado, com lançamento de novos produtos e previsão de crescimento de pelo menos 60%.
A empresa começou o ano de 2020 com planos ousados, mas a pandemia da covid-19 fez adiar para 2021 a execução das estratégias previstas. Mesmo assim, a empresa teve muito aprendizado, investiu nas vendas online e está em fase final de negociação para receber um novo aporte de investimentos do Fundo ABF (Althelia Biodiversity Fund Brazil).
É de Belém, no Pará, que a Manioca é gerenciada pelos sócios Joanna Martins e Paulo Reis. A empresa é definida pela dupla como uma pequena indústria de impacto socioambiental, que transforma ingredientes da Amazônia em alimentos naturais, práticos, saudáveis, inovadores e cheios de sabor. Ao mesmo tempo, todo esse processo é feito em diálogo com as comunidades, gerando desenvolvimento local, comércio justo e estruturação de cadeias produtivas.
Com a baixa nas vendas em 2020, a Manioca resolveu experimentar o ecommerce. A resposta foi muito boa. Integrante do movimento Amazônia em casa, Floresta em pé, foi uma das empresas de melhor desempenho nas vendas online junto ao Mercado Livre.
“A partir da parceria com o Mercado livre, conseguimos tornar o ecommerce viável, a ponto de investir. Hoje há uma pessoa na Manioca dedicada ao comércio digital, operações de ecommerce e marketing. Nossa visão sobre isso mudou muito, ” avalia Joanna, CEO da empresa.
O ano de 2020 foi também dedicado a entender melhor o negócio, o consumidor e caminhos possíveis.
“Um dos maiores aprendizados que tivemos desde que criamos a Manioca foi a relação com o mercado. Temos uma visão ‘de dentro para fora’, da Amazônia para o Brasil e para o mundo. E em geral os negócios que inovam e conseguem acesso a mercados são exatamente aqueles que vêm de fora. Conseguir fazer o que fazemos já é uma mudança de paradigma, porque em geral quem está dentro tem uma visão talvez mais limitada do mercado em geral, não entende muito bem o consumidor de fora, e isso às vezes dificulta a inovação ou adaptação do produto. ”
Novo olhar para o consumidor se reflete em praticidade e sabor
Joanna e Paulo, sócios na Manioca
Buscando entender o olhar do consumidor, a Manioca percebeu o desejo de praticidade e de alimentos naturais. Assim, surgiu a diretriz de trabalhar com produtos mais acessíveis, mais simples, e ao mesmo tempo manter a valorização do sabor. Soluções que sejam saborosas, que não façam mal à saúde e que sejam práticas. Essa orientação está presente nos novos produtos que serão lançados ao longo deste ano.
Serão cinco novos produtos, que refletem a vocação da Manioca de ser uma indústria de temperos e sabores da Amazônia. Ao mesmo tempo, a empresa vai começar a atuar em novos segmentos da indústria de alimentos.
O primeiro desses produtos, disponível ao consumidor a partir de fevereiro, é uma nova versão do tucupi, em menor quantidade e já com essa chave de leitura de ser, também, um tempero.
“O tucupi é um produto incrível, 99% das pessoas que provam o caldo gostam. Tem uma aceitação muito boa. Tendo isso em vista, começamos a nos questionar sobre como fazer esse produto se tornar comum na vida dos brasileiros. Deixar de ser amazônico apenas e passar a ser um produto do Brasil. Assim como aconteceu com o pão de queijo, que era de Minas, e o açaí, que era do Pará, e agora ambos são considerados produtos brasileiros, ” define Joanna.
A empresa também lançou recentemente a linha Sementes, que oferece cumaru, nibs de cacau, castanha e, em breve, puxuri. E começou a comercializar seus produtos em Portugal.
Programa de Aceleração da PPA ajudou empresa a entender melhor o seu impacto
Antes de participar do Programa de Aceleração da PPA, a manioca percebia o impacto socioambiental que o negócio gerava, mas não sistematizava esses resultados. A partir do processo de aceleração, a empresa se aprofundou nos impactos gerados em sua cadeia produtiva e voltou ainda mais esse olhar para o negócio.
“Nossas ações se estruturaram, foram sistematizadas. Passamos a ter um olhar ambiental mais aprofundado. Sempre entendemos que, ao fazer o desenvolvimento social de nossos fornecedores, valorizando também a nossa cultura, trazíamos ganhos para a região no aspecto ambiental. Mas a partir da aceleração entendemos que era possível implementar várias outras ações ambientais para ampliar esse ganho, ” destaca Joanna.
Outros pontos destacados pela CEO da Manioca neste processo incluem a conexão que o Programa possibilitou com pessoas, outros negócios e entidades, o que fez com que a empresa percebesse o ecossistema de impacto em desenvolvimento na região e se fortalecesse nesse movimento.
A Manioca participou das duas rodadas de investimento promovidas pelo Programa, e conseguiu investimento em ambas.
“Foram muitos os ganhos que a gente teve com o Programa de Aceleração, e que não aconteceram só naquele primeiro ano, quando fomos acelerados, mas que reverberam até hoje. E isso mostra o quanto essa rede se fortaleceu ao longo do tempo e como essas conexões são importantes e necessárias para que essa região se desenvolva cada vez mais”, avalia ela.
Olhar para a cadeia produtiva
Maurício, produtor de tapioca flocada
A preocupação em estruturar e fortalecer a cadeia produtiva revela ainda um olhar cuidadoso para os fornecedores, com um programa de desenvolvimento que os prepara não apenas para fornecer os insumos para a Manioca, mas também para a relação com outros potenciais clientes.
Esse preparo inclui adequações sanitárias, formalização e outros pontos importantes para garantir uma padronização mínima dos insumos, ao mesmo tempo em que mantém a pegada artesanal e cultural, respeitando cada produtor.
“A Amazônia é um território onde existe muita produção, mas pouca formalização. Em geral, esses produtores, até por serem da agricultura familiar e pela ausência do estado, são muito pouco profissionalizados e formalizados. O papel do nosso programa é apoiá-los, orientá-los, capacitá-los e fazer com que eles melhorem, seja em suas estruturas ou em seus processos produtivos, na padronização dos produtos. A natureza nos dá produtos diferentes dependendo da época do ano, do solo do território, mas existem processos de produção que conseguem reduzir um pouco essas diferenças”, destaca Joanna.
A Manioca contratou um arquiteto para apoiar os produtores na melhoria de suas estruturas de produção, criando plantas estruturais de casas de farinha, de produção de tucupi e de tucupi preto. Os produtores queriam melhorar as estruturas de produção, mas não sabiam como fazer, porque não existem orientações específicas. Ao mesmo tempo, eles tinham receio de que as estruturas não fossem adequadas ou aceitas para a formalização de seus negócios.
“Queremos garantir boas práticas de manipulação e segurança alimentar, mas em diálogo com a cultura. O processo industrial em geral, de padronização, traz uma cultura externa que muitas vezes oprime a cultura dos nossos povos tradicionais. Nos preocupamos em não tornar o ambiente de produção um ambiente industrial. Ele continua sendo artesanal, mantendo as características culturais de cada produtor, mas ao mesmo tempo traz segurança alimentar, saúde e processos mais padronizados para a gente ter produtos melhores no final. ”
A Tipiti, empresa do ciclo 2019 do Programa de Aceleração da PPA, terminou o ano de 2020 com o lançamento de uma marca própria de cachaça, a Jambull.
O produto é composto por cachaça artesanal envelhecida em barris de madeira de jequitibá rosa, comprada a granel de um produtor da região próxima de Santarém, e folhas e flores de jambu fornecidos pela AMABELA (Associação de Mulheres de Belterra).
Com esses ingredientes, a Tipiti, sediada em Santarém, no Pará, cria a Jambull, cuidando da padronização, infusão e envasamento.
Em 2019, com recursos oferecidos pelo Programa de Aceleração, Glinnis da Rocha, uma das sócias da Tipiti, fez o curso Mestra Alambiqueiro e Padronização, análise sensorial e princípios de elaboração de blends em Itaverava, MG, ministrado pelo Cana Brasil – Centro de Tecnologia em Cachaça. Com o conhecimento adquirido, ela e a sócia, Ingrid Ribeiro, criaram uma versão própria da saborosa cachaça com jambu.
“Escolhemos o nome Jambull por conta da força do touro, metaforicamente casada com a fortidão atribuída às cachaças com Jambu que temos no mercado, e em referência a nós mesmas, mulheres empreendedoras, especialmente da Amazônia, que se reinventam hora e outra”, conta Glinnis.
O primeiro lote da cachaça foi distribuído na última semana de dezembro de 2020, e a Tipiti vendeu suas 12 primeiras garrafas. A produção atual é de cerca de 30 litros por mês, em versões disponíveis de 100ml, 300ml, 500ml, 750ml e 1 litro. O pedido de registro da Jambull no MAPA já foi encaminhado.
Atualmente, a Jambull é comercializada por meio das redes sociais e pelo WhatsApp (93 99187-8387), com entrega e/ou retirada em pontos específicos em Santarém, Alter do Chão e Manaus, além de Nova Colina – Sobradinho, no DF. E deve chegar ao Rio de Janeiro a partir de março.
Nos próximos seis meses, a intenção é multiplicar as vendas e ampliar a produção, consolidando a marca e iniciando vendas online. Em um ano, contando já com o registro no MAPA, a Tipiti espera ampliar ainda mais as vendas mensais e dar início à execução do projeto de ter uma destilaria própria. E em dois anos, a meta é ter produção de pelo menos 200 litros/dia em destilaria própria e o selo de manejo sustentável de madeira para envelhecimento.
Remodelando o negócio
Criada em 2015, a empresa participou de alguns processos de incubação e aceleração. Quando ingressou no Programa de Aceleração da PPA, comercializava seis produtos – geleias, pimentas, café de açaí, farinha de mandioca, farinha de tapioca e licores – de diferentes parceiros da região, tendo como objetivos a conservação da floresta, a valorização dos saberes dos povos e a disseminação da cultura paraense.
Ao longo do Programa, a Titipi já visualizava o investimento no desenvolvimento de produtos próprios, a partir de insumos de pequenos produtores da região. Com a pandemia da Covid-19, a empresa teve que suspender o contato direto com as comunidades. As sócias resolveram investir no desenvolvimento do primeiro produto da Tipiti, a cachaça Jambull, e garantem que outros virão.
A marca paraense de slow fashion Da Tribu lançou, no dia 10 de dezembro, uma nova coleção, a Nortear, com peças inovadoras e sustentáveis feitas em TEA (Tecido Emborrachado da Amazônia).
As novas peças, com tiragem limitada, incluem uma bolsa que se transforma em mochila e cachepôs, assinados por Reg Coimbra e Bruna Bastos, designers paraenses da Jambo Estúdio.
A coleção foi idealizada a partir das mudanças provocadas pela pandemia do coronavírus: “Nos perguntamos o que as pessoas estavam buscando para si e percebemos fortemente uma reconexão com o espaço em que se vive, com a casa, por exemplo”, afirma a diretora criativa da marca, Tainah Fagundes.
Outro ponto interessante das peças são os múltiplos usos. A mochila pode ser utilizada também como bolsa, e o cachepô, além de abrigar vasos de plantas, pode ser usado como cesto para objetos e frutas. “Nos interessou pensar nesses desdobramentos, e por isso chamamos a Reg e a Bruna para conceber o design dos produtos, bem como as estampas”, diz Tainah.
Outras parcerias da coleção incluem o coletivo Costuraê – projeto que reúne costureiras dos bairros do Guamá e Terra Firme, em Belém – e a comunidade Pedra Branca, na ilha de Cotijuba – que produziu o TEA e que é parceira da Da Tribu há mais de três anos.
A sustentabilidade das peças
A coleção Nortear surgiu de um interesse comum entre a marca e o Jambo Estúdio. “Já havia uma admiração e interesses em comum há algum tempo. Da Tribu e Jambo são tocadas por mulheres amazônidas, empreendedoras, que pensam de forma parecida e que acreditam na potência das parcerias”, diz Reg Coimbra.
Foi realizada uma pesquisa do universo da marca e seus consumidores, tendências de mercado e da área de moda para a proposição dos novos produtos com o Tecido Emborrachado da Amazônia (TEA), cujo maquinário específico foi construído com recursos do edital emergencial do Programa de Aceleração da Plataforma Parceiros pela Amazônia, lançado para ajudar empreendedores e empreendedoras em meio à crise da Covid-19. O tecido foi desenvolvido em parceria com pesquisadores da UnB (Universidade de Brasília)
As peças são confeccionadas em TEA e em lonas de caminhão reaproveitadas, com mais de dez anos de uso, representando pelo menos 1 milhão de quilômetros rodados.
“A lona foi tingida e tratada, para ser amaciada. É um momento de ressignificar e parar de produzir excessos, apostar em produtos atemporais e com mais tempo de vida útil”, defende a criadora da Da Tribu, Kátia Fagundes, sobre o conceito da coleção, que permeia também toda a trajetória da marca, com o uso constante de materiais recicláveis, matéria-prima renovável e investimento na relação com comunidades na capital paraense.
Antes do TEA, a Da Tribu desenvolveu peças com fios emborrachados com látex, em parceria com a Comunidade Pedra Branca. Agora, a expectativa é que, com o novo maquinário, a produção aumente e traga mais retorno financeiro. “Vimos que a produção é bem maior, tivemos uma demanda bem grande e isso impacta no nosso mundo financeiro dentro da comunidade”, diz Corina Magno, produtora dos fios e tecidos da Comunidade Pedra Branca.
Representante do Brasil na etapa final da segunda edição do Prêmio Empreender com Impacto Latam, a Tucum, representada pela empreendedora Amanda Santana, ficou em segundo lugar dentre seis semifinalistas e recebeu um prêmio de 10 mil dólares para impulsionar o negócio.
O primeiro lugar ficou com o empreendimento Ecocitex, do Chile, que recebeu 20 mil dólares. E na terceira posição, escolha do público, ficou o projeto Cerrando El Ciclo, do México, que recebeu o prêmio de 5 mil dólares.
Os vencedores se destacaram dentre 614 participantes do Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, México e Uruguai. A premiação foi anunciada em um encontro virtual, que reuniu os semifinalistas e o júri composto por referências em empreendedorismo, inovação social e negócios de impacto da região.
A Tucum tem como foco a comercialização de arte tradicional de povos indígenas e ribeirinhos do Brasil, atuando junto a organizações e iniciativas indígenas na formação e capacitação com propósito de promover, valorizar e difundir a diversidade cultural brasileira.
Com 10 anos de atuação na Amazônia, o empreendimento fomenta a autonomia dos povos indígenas, promovendo geração de renda e autonomia, fixação no território, manutenção da cultura e saberes tradicionais e o reconhecimento e valorização da produção artesanal.
“Muitas pessoas ainda se espantam com o nosso negócio, que é inusitado ao unir povos indígenas ao ambiente digital. Esse prêmio é um reconhecimento muito importante, que mostra que estamos no caminho certo. Queremos quebrar paradigmas e preconceitos. O Mercado Livre é um parceiro na nossa jornada, apoiando, oferecendo conteúdo e dando segurança para seguirmos com energia renovada nessa jornada. E com o Empreender com Impacto vem para fortalecer essa rede de impacto e os pequenos empreendedores que ainda estão por vir”, diz Amanda Santana, criadora da Tucum.
O Empreender com Impacto faz parte da estratégia de sustentabilidade do Mercado Livre e, no Brasil, é articulado pela Consultoria Giral Viveiro de Projeto, e contou com conteúdo produzido a partir da inteligência de mercado do Mercado Livre e da ampla experiência com empreendedorismo e inovação social dos parceiros Semente de Negócios – aceleradora que atua no desenvolvimento de negócios inovadores desde 2011 – e a Coalizão Éditodos – grupo de organizações do ecossistema de empreendedorismo negro, que atua coletivamente para promover o empreendedorismo na base da pirâmide.
Em 2020, o Programa buscou se somar à crescente demanda do ecossistema de empreendedorismo de impacto no Brasil, apoiando empreendedores e empreendedoras no fortalecimento de estratégias comerciais, no acesso a mercados de forma eficiente e sustentável e na potencialização de seus benefícios para a sociedade.
“O Empreender com impacto busca potencializar empreendedores latinoamericanos que geram benefícios sociais e ambientais por meio dos seus negócios, de forma que a vitória da Tucum é bastante simbólica, não apenas pela importância da Amazônia para a América Latina, mas pelo fato de contribuir para a geração de renda e para a conservação da floresta por meio da valorização dos saberes tradicionais” afirma Laura Motta, Gerente de Sustentabilidade do Mercado Livre.
Nova plataforma
A Tucum lançou este mês um marketplace que pretende reunir lojas dos grupos indígenas que produzem artesanato e com os quais vem trabalhando nesses 10 anos de atuação.
As três primeiras lojas são da Galeria Amazônica, loja da Associação Comunitária Waimiri Atroari, da Meprodjá – Arte Kayapó e da Tecê-AGIR, Arte das Guerreiras de Rondônia. A Tucum segue sendo uma das lojas no market place, e comercializa artesanato dos outros grupos até que estejam preparados para terem autonomia com suas próprias lojas.
“Essas iniciativas trabalham há muito tempo com artesanato e agora querem se posicionar online. E a Tucum vai ser essa plataforma, que vai possibilitar que eles realizem esse sonho”, avalia Amanda Santana. Todas as fotos, ensaios e mídia foram feitos pelos grupos indígenas. “Todo o processo foi feito por eles, queríamos que eles sentissem como é o trabalho online e percebessem que só depende deles. Damos suporte sempre que necessário.”
Em outubro, a Tucum deu início a uma experiência de ensino à distância junto a lideranças indígenas: o programa Capacitação de Gestores Indígenas em venda online de artesanato. A iniciativa foi montada a partir da premissa de preparar essas lideranças para efetuarem suas vendas em qualquer plataforma online, seja no marketplace da Tucum, em site próprio ou ainda em redes sociais como Facebook e Instagram. Essas três primeiras lojas são resultado deste trabalho.
A nova plataforma da Tucum traz um mapa do Brasil onde é possível visualizar todas as etnias que trabalham com o empreendimento, a localização dos artesanatos e os impactos causados, dentre muitos outros dados. “Convidamos todos a comprar na floresta por meio da plataforma Tucum e perceber o impacto positivo que isso causa”, celebra Amanda.
A CBKK S/A, nova empresa com foco em investimentos que se traduzam em impactos socioeconômicos e ambientais na origem, liderada pelo empresário Stefano Arnhold (ex TecToy), anunciou acordo e associação com o chocolatier amazônida Cesar De Mendes na empresa Chocolates De Mendes.
O objetivo é escalar a produção da fábrica sediada no Pará, mirando o mercado nacional e internacional de chocolates finos e sustentáveis. A De Mendes já vinha sendo procurada por outros investidores, mas não houve a sinergia encontrada agora com a CBKK.
“Essa negociação começou mais ou menos em agosto, e a importância dessa relação passa, principalmente, pela ampliação do que a gente já faz. Vamos intensificar os impactos socioambientais, o que sempre foi um grande foco da nossa empresa. Hoje temos impacto direto em cerca de 3.500 pessoas e em 300 mil hectares de floresta. Isso nos agrada, mas ao mesmo tempo incomoda, porque há muita coisa a fazer. A Amazônia é uma região gigante. A depredação da floresta acontece numa velocidade alta, precisamos ter respostas. E a ampliação da escala de atuação da De Mendes com a chegada da CBKK ajuda nisso, ” avalia César De Mendes.
A associação traz uma meta ambiciosa: impactar diretamente 50 mil pessoas e contribuir para a conservação de pelo menos 1 milhão de hectares de floresta até 2025.
Marcello Brito, ex-Agropalma e hoje CEO da CBKK S/A, destaca que a associação é a somatória de muito conhecimento mercadológico com o conhecimento de floresta e de cacau que só o chocolatier possui.
“Depois de 25 anos de atuação no Pará e na Amazônia em geral, percebo que a Amazônia é um lugar que tem tudo mas, ao mesmo tempo, precisa resolver processos legais. No caso da De Mendes, estamos ajustando toda a parte de legislação, regularização de planta, aplicação de boas práticas de fabricação, implantação de sistemas blockchain de controle de produção e de rastreabilidade de todo o cacau, e de um sistema de cálculo de carbono para mitigarmos as emissões de toda a operação, ” define Brito.
O CEO da CBKK destaca também a intenção de escala moderada em função do perfil do negócio, uma fábrica para produção de chocolates finos. “O que nós vamos fazer é usar todas as nossas habilidades para buscar os consumidores que valorizam esse tipo de produto, no Brasil e no exterior. Se crescermos demais, já vamos ter que usar cacau plantado, e seremos só mais um produtor concorrendo com os gigantes. Queremos manter o espírito do negócio, ser o produtor de chocolate que tem essa especificidade de trabalhar com as comunidades indígenas, quilombolas e com pequenos produtores. ”
De Mendes destaca a importância do acúmulo de experiência para consolidar essa associação: “O que nós somos hoje é a somatória de tudo o que já fizemos. Ter participado do Programa de Aceleração da PPA foi excelente nesse processo. Pelas conexões, pelo conhecimento compartilhado. Foi muito importante para amadurecermos enquanto negócio, entender o nosso papel e poder nos enxergar como um negócio sustentável. ”
“Estamos muito felizes com a celebração da parceria entre De Mendes e CBKK, porque o nosso grande objetivo com o Programa de Aceleração é ajudar as startups a se desenvolverem e captarem investimentos,” declara Mariano Cenamo, diretor de novos negócios do Idesam e coordenador do Programa de Aceleração da PPA. “Sem dúvida, a De Mendes está dando um passo importante na sua jornada, e temos certeza que a empresa terá um crescimento significativo na sua capacidade de geração de impacto positivo social e ambiental na Amazônia.”
Integração de novas comunidades amazônidas
A De Mendes hoje trabalha em parceria com cerca de 32 comunidades e com cinco bases de pré-processamento de cacau. A associação com a CBKK vai permitir o trabalho com outros territórios indígenas, quilombolas e ribeirinhos.
Dentre os parceiros que em breve se integrarão ao processo estão os índios Suruí, Ashaninca e Huni Kuin (Kaxinawá). Comunidades ribeirinhas do Amapá, próximas do Mazagão, também. Por meio de parceria com as Fundações Orsa e Jari, a atuação se estenderá ao entorno do rio Jari.
De Mendes já tem relação com uma comunidade na região do Jari desde 2014, quando descobriu uma variedade de cacau inédita no local, não catalogada, que dá origem a uma das barras de chocolate produzidas hoje pela empresa.
“Essas regiões não foram escolhidas aleatoriamente. Comunidades indígenas têm nos procurado. Estamos com mais ou menos 20 comunidades indígenas no estado do Amazonas, na região do Maturacá, para visitar. Os índios têm um conhecimento muito grande da floresta e também da mobilidade em seus territórios. São excelentes parceiros na busca de cacau. Temos essa sorte de essas comunidades nos procurarem para parcerias, e com a aliança com a CBKK, conseguiremos avançar muito nesse sentido”, diz ele.
Com a pandemia da covid-19, o chocolatier trabalha no desenho e montagem de um tutorial audiovisual do treinamento do pré-processamento de cacau, que normalmente executa com as comunidades presencialmente. Haverá suporte online e, tão logo seja possível, serão programadas visitas in loco. Esse processo vai permitir a ampliação do número de comunidades assistidas.
CBKK tem metas ambiciosas para promover impacto na origem dos negócios
Composta por executivos ou empresários que em suas trajetórias foram tocados em algum momento pela Amazônia, a CBKK S/A tem entre seus membros pessoas que trabalharam em sistemas que buscavam uma escolha de sustentabilidade ambiental, social ou socioambiental.
Marcello Brito, o CEO da empresa, vem da área do agronegócio, tendo trabalhado 25 anos no Pará, e participado de diversas iniciativas multistakeholders no Brasil e no exterior.
Todos os membros da CBKK são também conselheiros da Conservação Internacional no Brasil. E dessa atuação surgiu a inquietação de atuar para impulsionar a economia da sociobiodiversidade na região.
“Colocamos um desafio à nossa frente: participar de 100 a 120 negócios de agora até dezembro de 2030. Negócios pequenos, nos quais a gente possa ter 50%, 10%, 5% de participação, ou não ter participação nenhuma, mas ser fornecedor de serviço. Ou ainda um intermediário com a filantropia. Não significa ser sócio de todos esses negócios, mas ter um link com eles, fortalecê-los, ” define Brito. Para entrar no radar da CBKK, esses negócios precisam também gerar impacto na origem, nas comunidades.
“Delimitamos uma região para isso: o bioma Amazônia, as regiões costeiras com manguezais ou investimentos ‘na água’ – por exemplo, desenvolvimento de fazendas de algas em comunidades que estejam localizadas na costa brasileira. ”
A CBKK está se associando também a uma empresa ligada a sistemas agroflorestais, com ampla experiência no Brasil e no exterior, com a expectativa de que os negócios apoiados tenham o conceito de sistema agroflorestal à sua volta.
“É um modelo ainda pouco explorado, temos muito o que aprender em termos de conhecimento, de fitossanidade, de interação radicular entre as plantas, interação nutricional. Mas esse é o futuro da agricultura moderna, ” pondera Brito. “Nada contra soja, milho, arroz,que fazem parte do processo bioeconômico. Mas o que mais podemos fazer além da bioeconomia tradicional para gerar algo diferente para a Amazônia? O tempo está correndo e estamos perdendo a guerra lá, e perdendo de sete a zero. ”
Não é novidade que logística e acesso aos produtos da sociobiodiversidade amazônica estão entre os maiores desafios colocados aos negócios de impacto que atuam na região norte.
Uma das soluções encontradas para minimizar esse gargalo foi o estabelecimento de uma parceria entre Costa Brasil, Lothar Logística, Idesam e Climate Ventures, com o objetivo de promover, de forma sustentável, o acesso de marcas da sociobiodiversidade amazônica ao mercado nacional.
A parceria integra o movimento Amazônia em casa, Floresta em pé, que hoje congrega 16 marcas sustentáveis que atuam na Amazônia, a maior parte delas aceleradas pelo Programa da PPA.
A Costa Brasil é uma grande empresa especializada em transporte multimodal. Atua em todo o território brasileiro, entregando soluções customizadas de acordo com cada demanda, buscando agilidade, segurança e economia.
Pela parceria firmada, a Costa Brasil se compromete a realizar franquias de transferência semanal de cargas nas rotas Manaus-São Paulo e São Paulo- Itajaí, além de armazenagem nas localidades de Manaus, São Bernardo do Campo, Guarulhos e Itajaí. Se responsabiliza também pelo serviço de manuseio (etiquetagem e embalagem dos produtos).
Esse arranjo logístico é, em si, um grande avanço para os negócios que geram impacto positivo na Amazônia, facilitando o acesso aos produtos, trazendo redução de frete e rapidez de entrega, já que os produtos ficam armazenados no sudeste do país.
“A Costa Brasil tem como um de seus pilares a sustentabilidade, por isso nosso compromisso com o meio ambiente é constante. Estamos felizes em apoiar o projeto Amazônia em casa, Floresta de pé, que vem para contribuir cada vez mais para um Brasil sustentável, ” afirma Sérgio Thomaz, CEO da empresa.
A parceria inclui ainda a elaboração de estudo e assessoria de logística da cadeia de cada empreendedor, além de investimento em estações sustentáveis de carga em geral (contêineres), em ações de fomento à cadeia sustentável, disponibilização de ferramentas/sistemas para otimização de frete, dentre outros pontos.
Para o coordenador do Programa de Aceleração da PPA e diretor de novos negócios do Idesam, Mariano Cenamo, a Costa Brasil traz muito valor para o Programa, contribuindo com excelência e uma enorme rede de transporte e logística, armazenamento e distribuição de produtos, colocada à disposição das startups.
“Este ano em especial ficou evidente o quanto é importante dominar essas operações para colocar os produtos de impacto da Amazônia em condições mais competitivas nos mercados do sul e sudeste do Brasil. Nós estamos construindo uma série de soluções de armazenamento, transporte, distribuição e estocagem, que já estão colocadas à disposição dos negócios, e esperamos que no futuro as soluções tendam a crescer cada vez mais. ”
Com a pandemia, vários dos negócios amazônicos se viram compelidos a implementar ou incrementar o e-commerce. As marcas, empresas e organizações, algumas delas participantes do Lab Amazônia, se uniram e criaram o movimento Amazônia em casa, Floresta em pé, impulsionando a visibilidade e a comercialização para as marcas. E logo veio a celebração da parceria de logística.
Ricardo Lothar, da Lothar Consultoria, que participou do Lab Amazônia e vem ajudando a construir soluções, avalia que a chegada da Costa Brasil como parceira e operadora deste bloco de marcas amazônicas representa um marco e uma quebra de paradigma na relação inexistente entre grandes empresas de logística nacionais e os pequenos empreendedores de impacto na região.
“A Costa Brasil criará uma esteira logística virtual entre a Amazônia e o Sul e Sudeste do Brasil, com um entreposto, suspensão de tributo até a venda final e free time alongado de armazenagem, possibilitando que o produto amazônico esteja disponível para os grandes centros consumidores, com pronta entrega, sem onerar o empreendedor durante a fase de consolidação de marca e produto. A Lothar Consultoria, como parceira voluntária do Idesam e da PPA, cumpriu seu papel de ser orientador das soluções logísticas e prosperidade para os negócios de impacto na Amazônia, independentemente de seu tamanho. A Amazônia é solução, jamais um problema. ”
Curadoria de negócios e indicadores
A parceria também estabelece que Climate Ventures e Idesam farão a curadoria dos negócios sustentáveis aptos a se integrarem ao arranjo, a construção de indicadores de impacto socioambiental e a sistematização de uma base de dados resultantes das consultorias individuais de logística realizadas, buscando garantir transparência e monitoramento.
Para Floriana Breyer, da Climate Ventures, é muito significativo que a Costa Brasil tenha aceitado o desafio de vencer as distâncias amazônicas e abrir espaço em sua operação para transportar e armazenar cargas desses empreendedores. “Eles entenderam que, muito mais do que produtos, transportam floresta em pé e benefícios sociais. Parcerias como esta poderão escalar o movimento Amazônia em casa, Floresta em pé e levar a Amazônia para mais perto dos brasileiros, ajudando a consolidar a bioeconomia como vetor de desenvolvimento sustentável na região. ”
Vitor Galvani, também da Climate Ventures, destaca a importância da construção de indicadores para demonstrar que o valor dos produtos amazônicos vai muito além dos sabores e beleza, já que eles contribuem para manter a floresta em pé. “Um parceiro do porte da Costa Brasil pode nos apoiar nos indicadores de redução de custos logísticos e de tempo de entrega dos produtos para o sudeste do país. Isso impactará diretamente no aumento das vendas das marcas amazônicas. Além disso, essa parceria trará benefícios na redução da pegada de carbono na logística tradicional que os empreendimentos usavam, dado que priorizaremos o modal marítimo de forma otimizada. ”
Promover a conexão dos produtos da sociobiodiversidade amazônica com os brasileiros, criando elos mais curtos na cadeia de produção e vínculos mais diretos entre pequenos produtores da região norte e consumidores, é o centro da atuação da Taberna da Amazônia.
Anne Karoline Mello, fundadora da Taberna, é designer. Deu aulas durante um tempo, estudou e trabalhou com ecodesign, pesquisa de materiais, fez pós-graduação em gestão ambiental, trabalhou com o órgão de fomento à pesquisa do estado do Amazonas e cursou mestrado em design e sustentabilidade no Rio de Janeiro.
Nascida em Manaus, ela passou por todas essas experiências antes de retornar às suas origens. E o modo que ela encontrou para esse retorno, tendo em vista as relações tecidas no Rio, onde vive e criou a Taberna, foi estabelecer uma ponte entre o sudeste e os pequenos produtores amazônicos.
O começo foi limitado à venda de castanhas produzidas pelo pai, como também de biscoitos de castanha para amigos. Aos poucos, com a aceitação e o interesse do público, foi ampliando os produtos oferecidos, passou a participar de feiras e até teve por um tempo uma loja física no Rio.
Funcionando de modo itinerante até o início de 2020, a Taberna da Amazônia participava de eventos oferecendo biscoitos de castanha, bombons de cupuaçu, castanha, chocolate com cacau nativo da floresta, jujuba de cupuaçu com mangarataia, cachaça de jambu, tucupi, geleias, tapioca, pimentas e farinhas, entre muitas outras delícias produzidas por comunidades amazônicas.
“Cresci numa família que tem uma conexão muito forte com o interior do estado do Amazonas. Minha família por parte de pai é proveniente do Purus, sempre trabalhou com extração e comércio de produtos in natura, e eu cresci vendo esse processo. Achava tudo aquilo muito grandioso, mas aquela realidade não parecia adequada para mim, porque tinha nascido na cidade de Manaus, estudava, queria sair, conhecer o mundo. Saí, estudei e, nessa volta, depois de fazer todo um estudo de meio ambiente e lidar com públicos diversos, fui entendendo a integração do que eu tinha feito com o reconhecimento do valor de onde eu nasci e o que os meus pais fazem. A Taberna é parte disso”, conta Anne.
Período de isolamento trazido pela pandemia inspira redesenho do negócio
Com a pandemia da covid-19, a Taberna da Amazônia teve uma queda de mais de 50% no faturamento. Anne usou o tempo livre para reformular o negócio, investigando áreas que demandavam melhor organização e trabalhando na ampliação da oferta de produtos.
A alimentação continua sendo o forte da Taberna, mas produtos e serviços de outros nichos serão agora agregados ao catálogo.
“Essa ampliação foi pensada a partir de demandas dos nossos clientes, que pediam itens de beleza e saúde. Além disso, quando surgiu o nome Taberna da Amazônia, já veio uma vontade de levar uma grande diversidade de produtos da floresta para o mundo. Era um sonho que eu achava muito distante, mas que agora, por meio de uma nova plataforma online, fica mais viável”, avalia Anne.
Entre as novidades, que podem ser conferidas no início de dezembro – mês em que o negócio completa quatro anos – estão um novo site com e-commerce em funcionamento, além da disponibilização de kits de produtos em charmosos paneiros (que podem ser adquiridos de forma avulsa ou por assinatura) e a divulgação de expedições amazônicas que promovem vivências com turismo comunitário em parceria com organizações locais.
“A intenção é ter um Marketplace para pequenas iniciativas locais que atuam com expedições temáticas e em comunidades. A relação estabelecida com as iniciativas de turismo é de apoio na divulgação. Eu já costumava sugerir roteiros para clientes que pediam dicas para viagens à Amazônia. A Taberna agora vem como um apoio na divulgação dessas iniciativas por meio de seu site e redes sociais”, diz Anne.
Os paneiros, tecidos em fibra de arumã pelos Tikuna, também podem ser percebidos como vivências, na medida em que categorizam os produtos da Amazônia em quatro opções: Paneiro Pai D’água (produtos mais queridos da Taberna, como biscoitos, doces e bombons), Paneiro Pavulagem (traz produtos um pouco mais sofisticados ao paladar, pimentas, conservas, molhos, licores, geleias e chocolates), Paneiro Fit (produtos relacionados a dietas mais saudáveis e prática de esportes, com granolas, castanhas, guaraná) e Paneiro Caboquinho (reúne a cesta básica do nortista e traz itens como farinhas, tucupis, doces, café etc).
Em 2021, o leque de opções da Taberna passa a englobar itens de saúde, beleza e artesanato da floresta.
Mentoria oferecida pelo Programa foi fundamental na mudança
A intenção de expandir produtos e serviços já existia, mas ganhou ainda mais força com a mentoria de Hilton Menezes, CEO da Kyvo, oferecida pelo Programa de Aceleração da PPA, focada em modelo de negócio.
“Ele tem sido uma peça fundamental dentro do processo de reestruturação do negócio. Eu atuo sozinha em todas as frentes da empresa, e a tomada de decisões acaba sendo um processo solitário e difícil. O mentor me ajudou a organizar as ideias em planilhas, quadros e visualizar os caminhos possíveis para o negócio”, avalia Anne. O processo também ajudou na investigação da jornada do cliente, escolha da melhor plataforma para o e-commerce e no financeiro. Os demonstrativos de 2020 já estão fechados e o negócio entra em 2021 com um planejamento financeiro desenhado.
Outra mudança importante é a localização do estoque, que em dezembro passa a ocupar um centro de distribuição em Botafogo, no Rio de Janeiro, o que vai facilitar o processo de entrega de produtos com delivery para a cidade e o envio dos produtos para outras partes do país. Os produtos ficavam em Manaus, o que acabava encarecendo bastante o frete para o consumidor.
“Todo o processo de aceleração está sendo muito proveitoso. Finalizo o ano enxergando de verdade a minha empresa. E com o objetivo de implementar o e-commerce alcançado. Além das dívidas pagas, com apoio do próprio Programa, que disponibilizou aporte de capital de giro por causa da pandemia, para ajudar os negócios a passarem por essa fase. Mais tranquilidade para crescer e faturar mais em 2021”.
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